Ecos do pós-moderno na poesia do Poeta de Meia-tigela

Artigo publicado na revista Linguagem em pauta. Para ler online e fazer download gratuito.

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Mini-resenha sobre “O lado imóvel do tempo” de Matheus Arcaro

O preceito da imortalidade é ponto de partida para O lado imóvel do tempo. O autor utiliza esta busca do personagem, pelo seu ideal de existência, como mote linguístico-ideológico para elencar parâmetros filosóficos sobre o porquê de estar aqui, e vai um pouco além de questões ontológicas, o autor Matheus Arcaro, filósofo travestido de romancista, faz o leitor refletir sobre a sua própria existência. Aliás: leitor e Salvador (protagonista do romance) se encontram nessa narrativa que possui muitos indícios modernos, como o uso da oralidade na narrativa (tanto festejado pelos romances de José Saramago), desordem cronológica e musicalidade (Qualidades que Julio Cortázar se apoiou em muitas de suas narrativas) e linguagem polida que tende a profundidade dos rios (Autores como Rachel de Queiroz usavam também este recurso narrativo). Matheus Arcaro demonstra que apreendeu com os mestres da ficção, como também, demonstra que possui personalidade própria ao construir a biografia, fictícia?, de um poeta desiludido com a sua não existência nos meios literários.

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Melhores leituras de 2016

10. Notas sobre uma possível A casa de Farinha [João Cabral de Melo Neto]

O autor trabalhou nesses manuscritos por 20 anos. Quando percebeu que não conseguiria terminá-lo entregou-o a filha Inez para que ela guardasse e fizesse com o manuscrito o que bem entendesse. A edição da Alfaguara inclui fac-símile das anotações do poeta pernambucano. Nesse obra pude notar o quanto João era minucioso em seu trabalho poético.

9. Contos amazônicos [Inglês de Sousa]

O autor é paraense e integrou a Academia Brasileira de Letras nos tempos em era presidida por Machado de Assis. A obra se integra no naturalismo/realismo brasileiro, pra mim o livro é mais realista que naturalista, como também bastante ligado ao folclore da região norte brasileira.

8.Outros Cantos [Maria Valéria Rezende]

Memória, sertão, vida peregrina, ditadura militar, feminismo, machismo… Me pareceu um romance à moda dos autores de 30, como Rachel e Graciliano, mas Valéria não fica só nas referências ela demonstra e impõe a sua própria. Não é a toa que ela é um dos destaques da nossa contemporânea literatura brasileira.

7. Da estátua à pedra [José Saramago]

Aos poucos vou voltando a ler e reler Saramago. Este Da estátua à pedra já foi publicado na Itália e na Espanha, porém só depois que o autor faleceu é que a obra ganhou edição brasileira. Pilar Del Rio destaca que este é um mapa da escrita saramaguiana. O texto é resultado de uma conferência a universidade italiana de Turim realizada em abril de 1998. Ressalto ainda mais: é leitura obrigatória para se compreender melhor o universo saramaguiano.

6. O aquário desenterrado [Samarone Lima]

Trata-se de um livro de poemas de um autor cearense radicado em Recife-Pe. O referido livro venceu o prêmio da Biblioteca Nacional de 2014. Eis a memória trabalhada naquilo que Aristóteles tanto declama em sua Arte Poética. Gostei bastante da poesia de Samarone, poeta maduro dono de um lirismo cada vez mais raro na poética brasileira.

5. Bartleby, o escrevente [Herman Melville]

O interessante do conto é que não há uma interpretação precisa dele. Cada um que o lê arranca da narrativa algo pessoal. A história que Melville narra atrai a atenção de filósofos, críticos, leigos e cineastas até hoje.

4. Um amor feliz [Wislawa Szymborska]

Já havia lido poemas esparsos da autora polonesa pela internet mas nunca tinha me debruçado a alguma de suas coletâneas lançadas no Brasil. Esse livro comprei em Brasília, e o li durante quase toda a minha estada na capital federal. É interessante como ela constrói as metáforas e como arremata os poemas. É leitura obrigatória pra quem ama poesia.

3. O castelo [Franz Kafka]

Assim como o  livro O Processo, que ainda não li, esse romance ficou sem um final esboçado pelo autor. A maior parte das obras de Kafka foi publicada postumamente e só depois de morto foi que ele teve o devido reconhecimento literário. Esse romance me deixava angustiado a cada página que eu lia. A literatura de Kafka causa esse desconforto no leitor e era isso que ele queria mesmo, ele deseja incomodar seus leitores.

2. Moby Dick [Hermam Melville]

Pra mim um romance que possui muitos vestígios de modernidade em sua tessitura textual. Em Moby Dick você encontra: conto, crônica, ensaio, sermão, dramaturgia, poesia, reportagem e retórica, sem contar, claro, outros gêneros que não consegui identificar em uma primeira leitura. Portanto não é só uma narrativa sobre a baleia branca, é uma lição de como construir um romance que exemplifique o que o é romance moderno.

1. O Jardim secreto [Frances Hodgson Burnett]

Clássico. Esta palavra define bem este livro. E por ser um clássico as releituras que fazemos ampliam nosso campo de visão de humanidade. É um livro sobre o que nos resta de humanidade, perceber e conceber as coisas boas do dia, que são simples e estão ao alcance de todos. É literatura infantil, isso já sabemos, mas não impede que pessoas de qualquer idade se deleitem com ele. Esse livro aprofundou meu silêncio em um mês. Um dia o relerei e ficarei na mesma.

Poema de Cláudio Oliveira

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Feriado das águas

Hoje me esqueci dos outros cômodos
e vim morar no quarto
talvez pelo teu cheiro ainda nas fronhas
talvez pela penumbra em venezianas
ou pelo anseio da chuva da tarde.

Não sei.

Sei das saudades incômodas
segundafeirizadas
por um maldito silêncio da tua voz
sei das minhas preces sem vergonha
josefinadas
por um bendito feriado cearense

o feriado das águas
o dia das nuvens grávidas
o dia em que as saudades choveram em mim.

10 conselhos de Carlos Drummond de Andrade a um escritor iniciante

Trechos (editados) da crônica A um jovem, publicada em A bolsa e a vida (1962):

1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

2. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom. Mas se disserem que seu livro é pior que o anterior, pode ser que falem verdade.

3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito à presunção de genialidade exclusiva.

4. Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo, poupe-se qualquer espécie de sofrimento.

5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.

6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.

7. Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos, se ficar famoso; se não ficar, não terá valido a pena.

8. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.

9. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.

10. Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

Os golpes poéticos de Talles Azigon

O livro Três golpes d’água (Substânsia 2014), de Talles Azigon, pretendem golpear três coisas: 1) O homem externo a sua poética; 2) o leitor que convive dia a dia com o poeta e 3) os versos de Azigon pretendem golpear a si próprio. Sendo assim, conversemos sobre o livro do poeta seguindo as divisões demarcadas no livro.

1) O golpe no mundo dos homens

Na primeira parte do livro, como já disse, o poeta direciona os seus golpes literários àqueles que não conviveram diretamente com ele. São os homens desconhecidos, e solitários, que caminham por entre a multidão: o fortalezense. O poema que abre essa parte, poetiza a rotina de Fortaleza:

como um passe de mágica

a cidade faz dormir

todos os semáforos.

o caos instalado

obriga-nos a ler o óbvio:

os homens não se entendem,

por isso os sinais.

o mundo relembra

que é mundo

(de pedra, ferro, cimento e gente)

livroNa verdade o poema acima pode se aplicar a qualquer cidade. O homem “civilizado” necessita de leis para se governar e se organizar. Sem isso, o homem vive em um caos total. Alias, até com as leis vivemos em um caos. Os últimos versos nos fazem refletir sobre a composição concreta do mundo. O poeta segue as indicações de Manuel Bandeira, que sabiamente, fazia poemas a partir de recortes de jornal, ou, de recortes urbanos.

Na epígrafe do livro de Talles já notamos um dos sinais de influência da poesia de Manuel Bandeira:

Esse anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.”

-Manuel Bandeira

Tá certo que colocar uma epígrafe de um autor não indica que todo o livro tenha que, necessariamente, sofrer alguma influência do mesmo. Mas pelo pouco que conheço o poeta dos Três golpes d’água, sei que poderá haver sim um certo diálogo com a poesia de Bandeira. Pois Talles é leitor, full time, de Bandeira. A captação poética, da obra do poeta das Cinzas das horas, se apresenta na percepção do urbano, da conscientização da efemeridade da vida e das referências à memória pessoal do autor fortalezense.

A epígrafe da obra de Talles, sinaliza também a necessidade que o poeta tem de eternizar o que acontece ao seu redor em forma de poesia. No poema Arquitetura do cansaço, Talles a maneira de Alberto Caeiro, faz um poema filosófico sobre a ânsia de sair da cidade. O poeta nessa primeira parte da obra, se sente um cidadão à parte da cidade. E para Platão não há lugar para o poeta em sua república, Talles não encontra seu lugar e por isso despeja o primeiro golpe aos residentes da república/cidade.

2) Golpe no meu mundo

Na segunda parte do livro, Talles Azigon, dirrciona os seus golpes poéticos para si mesmo. Nessa parte encontraremos um poeta exposto que se auto-golpeia com a sua memória. Em um dos poemas, ele nos confessa que há dentro dele um sertão infinito. Essa infinidade interior dará vazão ao lado poético. Nessa parte do livro, desvendamos o sertão interior do poeta.

Sabemos que a introspecção só é válida quando não é transcrita de maneira pessoal, fazendo do poema algo particular, ou, mero recorte pessoal do poeta. Talles se utiliza da introspecção de maneira sutil, pois como todo bom poeta, ele sabe que uma dosagem a mais de introspecção, faria de seus poemas meros textos pessoais.

Concluo comentando que esta parte do livro é importante para o todo da obra, pois a poesia deve primeiro golpear o autor para depois acertar os futuros leitores.

3) Golpe no teu mundo

Comecemos nossa conversa sobre a última parte do livro de Talles, analisando brevemente o poema que abre o terceiro golpe:

fala

teu falo

é meu

falo

o

meu

também

é teu.

Inicialmente, o poeta declara que a sua fala é também a fala do leitor, assim como também a fala do leitor é a fala do poeta. Os golpes dessa sessão, na verdade são feitos por um eu-lírico que se universaliza a partir da sensibilidade do leitor. O lirismo, tão presente na obra de Bandeira, é presença marcante na obra de Talles. O poema abaixo golpeia qualquer leitor desprovido de armaduras:

Fui embora pra dentro de mim

fiz um furo aqui em cima

e deixei escorrer toda crendice

que eu ainda tinha de tu.

nada não,

o amor é assim mesmo

quando não amarga na entrada

amarga na saída.

Sem como se defender, o leitor é golpeado poeticamente nas páginas seguintes desta sessão e de todas as sessões do livro. Se por acaso você se machucar com os Três golpes d’água de Talles Azigon, leia novamente a obra, pois as sucessivas releituras funcionam como antídotos pós-términio de leitura.