A literatura de Bruno Paulino

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É bastante recorrente na Literatura Cearense os autores utilizarem o conto para construir seus artificies textuais. Me arrisco a dizer que em nossa literatura, made in Ceará, há mais contistas que poetas. E sobretudo excelentes contistas. Veja lista de alguns mestres do conto cearense: Moreira Campos, José Alcides Pinto, Dimas Carvalho, Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Natércia Campos… alguns desses autores citados até já se aventuraram em outras searas literárias, mas o conto chega a ser uma forma de se chegar a compreender a safra-verbal de muitos desses autores.

Tenho acompanhada a literatura de Bruno desde A menina da chuva que, por sinal, me parece ser uma ótima porta de entrada para a sua literatura cada vez mais extensa. Mas nem por isso o leitor deverá deixar de ler e reler estes Pequenos assombros. O que fica ao término desse livro é um gostinho de quero ler mais e para isso existem os livros anteriores a esses contos de visagem que podem ser lidos e apreciados por todas as idades. Essa abertura que a obra de Bruno faz, lhe permite atingir um vasto público não o restringindo a leitores acadêmicos ou os que não tem tanta informação teórica sobre a arte literária.

Percebo em seus escritos não apenas uma manifestação literária, mas de uma afirmação existencial do autor para a sua condição de cidadão quixeramobiense e claro cearense. Essas confirmações se fazem pelo uso recorrente do léxico nordestino-cearense. Bruno leva a fala local aos seus escritos. Essa transposição ao papel me lembra o trabalho de um pintor preocupado em retratar a sua gente, claro que Bruno é um pintor verbal e seus escritos confirmam a importância que o autor tem e dá à sua região, o Sertão-central cearense.

O autor apresenta caracteres de um contador de causos à moda antiga, como bem afirmam os contos O exterminador de lagartixas e Visagem. O uso recorrente do narrador em primeira-pessoa também é de uso dos cantadores, dos repentistas e dos trovadores, preciso dizer que Bruno bebe dessa safra nordestina de cordelistas encantadores do sertão?

Em um desses causos, apresentados nessas visagens contísticas, Bruno foge do óbvio do conto, que é narrar as estórias sem fazer uso de outros gêneros, e recorre ao diário para transcorrer a sua narrativa. Em outro recorre a memória para falar de seu animal de estimação. E mais outra vez, utiliza-se de recursos fantásticos para criar estórias sobre o Vilarejo de Boa Fé. Enlaça todos os contos no último deixando no ar a possibilidade de que tudo que lemos pode não ter passado de devaneios noturnos do autor após ler Stephen King antes de adormecer. Tudo é possibilidade de aproximação do irreal pelos contadores de causos do sertão.

Comprimir o texto sem esvaziar a sua qualidade e sem comprometer os aspectos verbais é notório em alguns autores, e que Bruno já vem demonstrando desde sua primeira intervenção literária na crônica e que aqui se reafirmam nestes contos. Isso não quer dizer que o conto deva ser um texto escrito exclusivamente de poucas páginas, note bem: é que a modernidade tem exigido isso dos artistas.

Além das atividades literárias, o autor de Quixeramobim é pesquisador da história social, política e artística de sua região. Essa pesquisa resultou no belo Sertão: poetas e prosadores. Arrisco-me a dizer que a tessitura verbal da literatura produzida por Bruno possui como fio condutor a memória que o autor carrega em si sobre a região em que se situa e sobre os livros que o contista admira.

A boa prosa contida nestes Pequenos assombros cativa pela rigidez e boa coordenação de enredo nas estórias aqui contidas. Bruno já está deixando de ser uma promessa para ser uma realidade nas letras do Ceará. Com quatro livros publicados, o autor vem colecionando elogios por parte de autores já consagrados em nosso meio literário. Fisgo um comentário oportuno de Nilto Maciel: “Não sei se são feitas de memórias as páginas de Bruno Paulino. Se não são, serão de observações. (…) Pois Bruno sai em passeio pelo passado, por gentes e bichos, terras e águas…” esse comentário foi sobre a sua obra de estreia, Lá nas Marinheiras e outras crônicas, mas aproveito o ensejo e reafirmo esse lado observador que o autor desses Pequenos assombros tem. Eis um observador atento a tudo o que lhe cerca e isso o faz contador de assombros, estórias, crônicas, contos e visagens.

[Posfácio para o livro Pequenos assombros, editado em 2018 pela Expressão Gráfica e Editora]

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É primavera, crônica de José Luís Lira

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Conforme o calendário, às 17h02min de 22/09, teve início a Primavera 2017 que terminará em 21/12/17, às vésperas do Natal do Senhor. A primavera, conforme o informativo, é a estação que antecede o verão e sucede o inverno. No Hemisfério Sul, onde está localizado o Brasil, esta estação é caracterizada pelo desabrochar das flores e pela elevação da temperatura. Aqui no Ceará somos acostumados ao período chuvoso e ao período seco. Mas, a primavera enche os olhos. Até já fiz poemas sobre a perfeição, beleza e efemeridade da flor, da rosa.

Então, é primavera! Aqui no Ceará sempre achei que a primavera fosse em maio, mês das mães, das noivas, sempre tão florido por conta das chuvas que terminavam em abril. De certo modo tinham o mesmo sentido. Hoje vejo a primavera em seu mês real, setembro, e um pouco antes que ela chegasse participei de uma palestra interessante intitulada a “Linguagem eterna e apaixonante do livro”, ministrada pelos confrades Lêda Maria Souto e Jeff Peixoto, durante evento da Academia Fortalezense de Letras (da qual fui fundador junto com Matusahila Santiago). As rosas, as flores, sabemos nós, duram pouco, mas, encantam a vida. Ao contrário, o livro permanece por gerações e gerações. Com muita habilidade, os escritores falaram de um amigo comum a palestrantes e ao público presente, o livro impresso.

Há alguns dias em minhas mãos e merecendo comentários, envolvendo a temática, li, com alegria, o livro “Girassóis maduros”, de Léo Prudêncio. Envolvendo o outono e a primavera, o poeta inicia dizendo que seu verso “parte do silêncio e do voo”. “Observando o silêncio das árvores”, lembra o “velho ipê”, “abrigo de pássaros”, verdadeiro “asilo a céu aberto”. Diz ele, “Expirou o prazo/ da primavera, mas ainda/ há flores em meu jardim”.

Com sensibilidade poética o autor enuncia: “Aqui jaz o silêncio/ a última flor desabrochou/ repara na roseira/ Sinto cheiro de sol/ mas só os girassóis do meu/ quintal se enchem de luz”. Ainda assim, “estrelas/ pousam nos galhos do velho/ carvalho”, em segredo, quem sabe aguardando “o recital que a chuva nos oferta”, pois, ao amanhecer, “a flor orvalheceu”.

Percorrendo os locais da infância, lembro-me dos campos floridos com seus arbustos e flores selvagens que ninguém cultivava, mas, que possuem beleza infinda, lembrando o evangelista Mateus, “Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam”. É obra de Deus. E eu, menino, ficava muito feliz porque, na minha cabeça, a natureza se enfeitava para receber o Rei dos Reis, Jesus, fonte de toda a beleza e amor tão necessários dia-a-dia!

É primavera. Começamos os meses terminados com “bro” que irão até dezembro. Dizemos, aqui no Ceará, os meses mais quentes; mas, também os dois meses que preparam a festa do Natal do Senhor, o nascimento de Jesus. E por falar em Menino Jesus, lembrei-me, de logo da Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, cuja festa se celebra em 1º/10. Ela prometeu-nos uma chuva de rosas e se constitui a flor mais linda e bela da Ordem do Carmelo. A primavera não é apenas uma estação temporal, mas, também, de nossa própria vida. Então, incorporemos a beleza desse momento e busquemos a felicidade, pois, como dizia Drummond, “felicidade é um estado de espírito transitório por natureza”.

Sobre a palavra “sertão”

J. Borges

“A palavra ‘certão’ (com c), pode ser encontrada, segundo ainda Barroso (1947), já no Século XVI, designando as regiões do interior do próprio Portugal. Mas, no mesmo trabalho, Barroso (op.cit.) levanta a tese de que “sertão” pode ter se derivado do vocábulo ‘muceltão’, abreviado para ‘certão’, cujo significado latino – locus mediterraneus – é perfeito. Afirma ainda, aquele autor, que a palavra ‘celtão’ ou ‘certão’ possa ser também corruptela de puro angolano, da língua bunda – michitu, muchitu e por fim muchitun, segundo ele, por nasalação dialetal. Esse termo era empregado com o significado de ‘mato’ pelo nativo do interior. Tal palavra tornou-se designativo de ‘mato longe da costa’. Depois, por influência lusa, ‘muceltão’ e sua forma abreviada – ‘celtão’ ou ‘certão’, com o significado de selva, interior das terras africanas coberto de mataria (e não somente ‘deserto grande’ ou ‘desertão’). A propósito da mesma palavra, o estudioso Moacir M. F. Silva (1950) apresenta algumas hipóteses interessantes. Afirma que a palavra “sertão” não é brasileirismo, como muita gente supunha, pois já era usada antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses, para designar as terras interiores sem comunicação. Esse mesmo autor explica que a palavra pode ser encontrada duas vezes na Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, na carta de Caminha, ao relatar sobre as terras descobertas ao rei de Portugal, nos dois trechos em que a palavra “sertão” aparece, (cuja grafia é “sertaão” naquele documento), traz o significado de “lugar oculto, ou sem arvoredo, situado longe da costa”, conforme explica Cunha (1964, p. 102)”.

[SOBRE A PALAVRA “SERTÃO”: ORIGENS, SIGNIFICADOS E USOS NO BRASIL (DO PONTO DE VISTA DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA), Fadel David Antonio Filho, revista Ciência Geográfica, 2011]