Sobre a palavra “sertão”

J. Borges

“A palavra ‘certão’ (com c), pode ser encontrada, segundo ainda Barroso (1947), já no Século XVI, designando as regiões do interior do próprio Portugal. Mas, no mesmo trabalho, Barroso (op.cit.) levanta a tese de que “sertão” pode ter se derivado do vocábulo ‘muceltão’, abreviado para ‘certão’, cujo significado latino – locus mediterraneus – é perfeito. Afirma ainda, aquele autor, que a palavra ‘celtão’ ou ‘certão’ possa ser também corruptela de puro angolano, da língua bunda – michitu, muchitu e por fim muchitun, segundo ele, por nasalação dialetal. Esse termo era empregado com o significado de ‘mato’ pelo nativo do interior. Tal palavra tornou-se designativo de ‘mato longe da costa’. Depois, por influência lusa, ‘muceltão’ e sua forma abreviada – ‘celtão’ ou ‘certão’, com o significado de selva, interior das terras africanas coberto de mataria (e não somente ‘deserto grande’ ou ‘desertão’). A propósito da mesma palavra, o estudioso Moacir M. F. Silva (1950) apresenta algumas hipóteses interessantes. Afirma que a palavra “sertão” não é brasileirismo, como muita gente supunha, pois já era usada antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses, para designar as terras interiores sem comunicação. Esse mesmo autor explica que a palavra pode ser encontrada duas vezes na Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, na carta de Caminha, ao relatar sobre as terras descobertas ao rei de Portugal, nos dois trechos em que a palavra “sertão” aparece, (cuja grafia é “sertaão” naquele documento), traz o significado de “lugar oculto, ou sem arvoredo, situado longe da costa”, conforme explica Cunha (1964, p. 102)”.

[SOBRE A PALAVRA “SERTÃO”: ORIGENS, SIGNIFICADOS E USOS NO BRASIL (DO PONTO DE VISTA DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA), Fadel David Antonio Filho, revista Ciência Geográfica, 2011]

Melhores leituras de 2016

10. Notas sobre uma possível A casa de Farinha [João Cabral de Melo Neto]

O autor trabalhou nesses manuscritos por 20 anos. Quando percebeu que não conseguiria terminá-lo entregou-o a filha Inez para que ela guardasse e fizesse com o manuscrito o que bem entendesse. A edição da Alfaguara inclui fac-símile das anotações do poeta pernambucano. Nesse obra pude notar o quanto João era minucioso em seu trabalho poético.

9. Contos amazônicos [Inglês de Sousa]

O autor é paraense e integrou a Academia Brasileira de Letras nos tempos em era presidida por Machado de Assis. A obra se integra no naturalismo/realismo brasileiro, pra mim o livro é mais realista que naturalista, como também bastante ligado ao folclore da região norte brasileira.

8.Outros Cantos [Maria Valéria Rezende]

Memória, sertão, vida peregrina, ditadura militar, feminismo, machismo… Me pareceu um romance à moda dos autores de 30, como Rachel e Graciliano, mas Valéria não fica só nas referências ela demonstra e impõe a sua própria. Não é a toa que ela é um dos destaques da nossa contemporânea literatura brasileira.

7. Da estátua à pedra [José Saramago]

Aos poucos vou voltando a ler e reler Saramago. Este Da estátua à pedra já foi publicado na Itália e na Espanha, porém só depois que o autor faleceu é que a obra ganhou edição brasileira. Pilar Del Rio destaca que este é um mapa da escrita saramaguiana. O texto é resultado de uma conferência a universidade italiana de Turim realizada em abril de 1998. Ressalto ainda mais: é leitura obrigatória para se compreender melhor o universo saramaguiano.

6. O aquário desenterrado [Samarone Lima]

Trata-se de um livro de poemas de um autor cearense radicado em Recife-Pe. O referido livro venceu o prêmio da Biblioteca Nacional de 2014. Eis a memória trabalhada naquilo que Aristóteles tanto declama em sua Arte Poética. Gostei bastante da poesia de Samarone, poeta maduro dono de um lirismo cada vez mais raro na poética brasileira.

5. Bartleby, o escrevente [Herman Melville]

O interessante do conto é que não há uma interpretação precisa dele. Cada um que o lê arranca da narrativa algo pessoal. A história que Melville narra atrai a atenção de filósofos, críticos, leigos e cineastas até hoje.

4. Um amor feliz [Wislawa Szymborska]

Já havia lido poemas esparsos da autora polonesa pela internet mas nunca tinha me debruçado a alguma de suas coletâneas lançadas no Brasil. Esse livro comprei em Brasília, e o li durante quase toda a minha estada na capital federal. É interessante como ela constrói as metáforas e como arremata os poemas. É leitura obrigatória pra quem ama poesia.

3. O castelo [Franz Kafka]

Assim como o  livro O Processo, que ainda não li, esse romance ficou sem um final esboçado pelo autor. A maior parte das obras de Kafka foi publicada postumamente e só depois de morto foi que ele teve o devido reconhecimento literário. Esse romance me deixava angustiado a cada página que eu lia. A literatura de Kafka causa esse desconforto no leitor e era isso que ele queria mesmo, ele deseja incomodar seus leitores.

2. Moby Dick [Hermam Melville]

Pra mim um romance que possui muitos vestígios de modernidade em sua tessitura textual. Em Moby Dick você encontra: conto, crônica, ensaio, sermão, dramaturgia, poesia, reportagem e retórica, sem contar, claro, outros gêneros que não consegui identificar em uma primeira leitura. Portanto não é só uma narrativa sobre a baleia branca, é uma lição de como construir um romance que exemplifique o que o é romance moderno.

1. O Jardim secreto [Frances Hodgson Burnett]

Clássico. Esta palavra define bem este livro. E por ser um clássico as releituras que fazemos ampliam nosso campo de visão de humanidade. É um livro sobre o que nos resta de humanidade, perceber e conceber as coisas boas do dia, que são simples e estão ao alcance de todos. É literatura infantil, isso já sabemos, mas não impede que pessoas de qualquer idade se deleitem com ele. Esse livro aprofundou meu silêncio em um mês. Um dia o relerei e ficarei na mesma.