Inéditos na Revista Propulsão

Revista Propulsão
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Goiânia às cinco da tarde

cidade tua solidão me invade
hoje eu sou todo saudade
daquele verde mar e num
vazio quase intocável o
o mundo fez-se de luz

mas eu também sou
essa cidade em ruínas
eu também sou
essa alegria latina

Cantiga de amigo

Conte-me pequeno ramo de flores
traz notícias de meu amado
a quem há muito espero
            em meus braços?
Sei que as árvores comunicam pelo silêncio
não arredo de minha agonia, não dou passos
para trás.
Diz-me flores da acácia
porquê ouço a voz de meu amado
quando o vento corta por entre teus galhos?
            Mas não o vejo
            não o toco
            não o beijo...
Aquieta-me flores do verde pinho
sempre que volto pra casa a ausência dele
me devora, como uma cigarra devora o silêncio.

 

quando o verão chegou vindo do mar (tómas guðmundsson)

Quando o verão chegou vindo do mar
trazendo o sol para na cidade brilhar,
envolvendo em seu coração o mundo,
conheci o meu amor mais profundo.

E fomos, de mãos dadas, cantando,
verão ao coração jovem inspirando,
e o mais belo dos os poemas meus
eu o li e o transcrevi dos olhos teus.

Pese haja sombra nos vales, baías,
aos nossos amores, deleite e alegria
a gloriosa estrela no céu incendeia
mesmo quando a voz da brisa rareia.

Que têmpera nos dê o frio penoso,
e que o fogo nos aqueça, amoroso.

tómas guðmundsson

[tradução do islandês: Luciano Dutra]

Poema de Cláudio Oliveira

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Feriado das águas

Hoje me esqueci dos outros cômodos
e vim morar no quarto
talvez pelo teu cheiro ainda nas fronhas
talvez pela penumbra em venezianas
ou pelo anseio da chuva da tarde.

Não sei.

Sei das saudades incômodas
segundafeirizadas
por um maldito silêncio da tua voz
sei das minhas preces sem vergonha
josefinadas
por um bendito feriado cearense

o feriado das águas
o dia das nuvens grávidas
o dia em que as saudades choveram em mim.

Retrato do artista enquanto palavra

Manoel de Barros - arquivo da família

retrato do artista enquanto palavra

(à memória de Manoel de Barros)

I

só sei escavar o poema a partir da palavra

fora isso sou tão comum quanto qualquer pedra

e sou tão incomum quanto qualquer ser humano

II

corromper a imagem das coisas é papel da poesia

[o poeta é um mero transcritor de códigos]

não nos cabe partir do universal

escavamos de nosso próprio abismo o particular de cada poema

cada palavra desenhada aqui é uma parte de mim que se vai

III

a palavra é o desenho verbal das coisas

IV

do poeta?

já não se sabe mais

se é gente coisa animal ou árvore

talvez ele tenha se camuflado em uma palavra qualquer

 

(publicado em Mallarmargens – revista de poesia e arte contemporânea)