de barro e pedra, comentário sobre o livro de nydia bonetti

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A poesia de Nydia é como um muro de barro atingindo constantemente pelas chuvas matinais. Dos seus versos brotam flores, pedras, rios e outros seres do abismo. Sua poética nos ensina a caber nos galhos de árvores, em asas de pássaros e no silêncio de peixes e de cavalos a galopar no silêncio turvo das noites. Nydia é uma das melhores poetas brasileiras em atividade, ave passarinho por estar em contato com seus livros.

 

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A literatura de Bruno Paulino

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É bastante recorrente na Literatura Cearense os autores utilizarem o conto para construir seus artificies textuais. Me arrisco a dizer que em nossa literatura, made in Ceará, há mais contistas que poetas. E sobretudo excelentes contistas. Veja lista de alguns mestres do conto cearense: Moreira Campos, José Alcides Pinto, Dimas Carvalho, Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Natércia Campos… alguns desses autores citados até já se aventuraram em outras searas literárias, mas o conto chega a ser uma forma de se chegar a compreender a safra-verbal de muitos desses autores.

Tenho acompanhada a literatura de Bruno desde A menina da chuva que, por sinal, me parece ser uma ótima porta de entrada para a sua literatura cada vez mais extensa. Mas nem por isso o leitor deverá deixar de ler e reler estes Pequenos assombros. O que fica ao término desse livro é um gostinho de quero ler mais e para isso existem os livros anteriores a esses contos de visagem que podem ser lidos e apreciados por todas as idades. Essa abertura que a obra de Bruno faz, lhe permite atingir um vasto público não o restringindo a leitores acadêmicos ou os que não tem tanta informação teórica sobre a arte literária.

Percebo em seus escritos não apenas uma manifestação literária, mas de uma afirmação existencial do autor para a sua condição de cidadão quixeramobiense e claro cearense. Essas confirmações se fazem pelo uso recorrente do léxico nordestino-cearense. Bruno leva a fala local aos seus escritos. Essa transposição ao papel me lembra o trabalho de um pintor preocupado em retratar a sua gente, claro que Bruno é um pintor verbal e seus escritos confirmam a importância que o autor tem e dá à sua região, o Sertão-central cearense.

O autor apresenta caracteres de um contador de causos à moda antiga, como bem afirmam os contos O exterminador de lagartixas e Visagem. O uso recorrente do narrador em primeira-pessoa também é de uso dos cantadores, dos repentistas e dos trovadores, preciso dizer que Bruno bebe dessa safra nordestina de cordelistas encantadores do sertão?

Em um desses causos, apresentados nessas visagens contísticas, Bruno foge do óbvio do conto, que é narrar as estórias sem fazer uso de outros gêneros, e recorre ao diário para transcorrer a sua narrativa. Em outro recorre a memória para falar de seu animal de estimação. E mais outra vez, utiliza-se de recursos fantásticos para criar estórias sobre o Vilarejo de Boa Fé. Enlaça todos os contos no último deixando no ar a possibilidade de que tudo que lemos pode não ter passado de devaneios noturnos do autor após ler Stephen King antes de adormecer. Tudo é possibilidade de aproximação do irreal pelos contadores de causos do sertão.

Comprimir o texto sem esvaziar a sua qualidade e sem comprometer os aspectos verbais é notório em alguns autores, e que Bruno já vem demonstrando desde sua primeira intervenção literária na crônica e que aqui se reafirmam nestes contos. Isso não quer dizer que o conto deva ser um texto escrito exclusivamente de poucas páginas, note bem: é que a modernidade tem exigido isso dos artistas.

Além das atividades literárias, o autor de Quixeramobim é pesquisador da história social, política e artística de sua região. Essa pesquisa resultou no belo Sertão: poetas e prosadores. Arrisco-me a dizer que a tessitura verbal da literatura produzida por Bruno possui como fio condutor a memória que o autor carrega em si sobre a região em que se situa e sobre os livros que o contista admira.

A boa prosa contida nestes Pequenos assombros cativa pela rigidez e boa coordenação de enredo nas estórias aqui contidas. Bruno já está deixando de ser uma promessa para ser uma realidade nas letras do Ceará. Com quatro livros publicados, o autor vem colecionando elogios por parte de autores já consagrados em nosso meio literário. Fisgo um comentário oportuno de Nilto Maciel: “Não sei se são feitas de memórias as páginas de Bruno Paulino. Se não são, serão de observações. (…) Pois Bruno sai em passeio pelo passado, por gentes e bichos, terras e águas…” esse comentário foi sobre a sua obra de estreia, Lá nas Marinheiras e outras crônicas, mas aproveito o ensejo e reafirmo esse lado observador que o autor desses Pequenos assombros tem. Eis um observador atento a tudo o que lhe cerca e isso o faz contador de assombros, estórias, crônicas, contos e visagens.

[Posfácio para o livro Pequenos assombros, editado em 2018 pela Expressão Gráfica e Editora]

Mini-resenha sobre “O lado imóvel do tempo” de Matheus Arcaro

O preceito da imortalidade é ponto de partida para O lado imóvel do tempo. O autor utiliza esta busca do personagem, pelo seu ideal de existência, como mote linguístico-ideológico para elencar parâmetros filosóficos sobre o porquê de estar aqui, e vai um pouco além de questões ontológicas, o autor Matheus Arcaro, filósofo travestido de romancista, faz o leitor refletir sobre a sua própria existência. Aliás: leitor e Salvador (protagonista do romance) se encontram nessa narrativa que possui muitos indícios modernos, como o uso da oralidade na narrativa (tanto festejado pelos romances de José Saramago), desordem cronológica e musicalidade (Qualidades que Julio Cortázar se apoiou em muitas de suas narrativas) e linguagem polida que tende a profundidade dos rios (Autores como Rachel de Queiroz usavam também este recurso narrativo). Matheus Arcaro demonstra que apreendeu com os mestres da ficção, como também, demonstra que possui personalidade própria ao construir a biografia, fictícia?, de um poeta desiludido com a sua não existência nos meios literários.

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a arte da brevidade ou tratado despoético sobre o haicai

vem bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

– o poeta de meia-tigela

tratado escrito de maneira descompromissada para abordar sem muita falácia a respeito do haicai e suas ramificações abrasileiradas. espero por meio dessa desescrita clarear nem que seja um pouco os anseios de quem planeja se arriscar a compor haicais. ou mesmo atrapalhar os estudos sobre o haicai. tratado sem fins lucrativos. isso é uma antipoética à la aristóteles & cia.

inicialmente: o haicai é uma poética oriental e bastante popular no japão. os versos de matsuó bashô, e sua vida como andarilho, popularizou esta escrita e pensamento filosófico, pois o haicai também envolve filosofia, ele não é um mero verso descritivo.

marcelo tápia comenta:

o haikai origina-se do tanka ou waka, forma de poema breve com 31 sílabas, que, em sua divisão clássica, é constituído de um terceto (com versos de 5,7 e 5 sílabas) e um dístico (tendo, ambos os versos, 7 sílabas). a maneira preferida de criação do tanka era fazer-se no dístico um comentário sobre o terceto que o antecedia. esse procedimento favoreceu que o poema passasse a ser composto em forma dialogada, ou seja, por duas pessoas, uma incumbindo-se da primeira estrofe, denominada hokku, e outra da segunda, chamada wakiku. acentuou-se, assim, a independência das partes da composição…”

hai: gracejo, brincadeira; kai: harmonia, realização.

pode-se grafar em português do brasil: haiku, haikai, haicai ou hai-kai.

citação de antonio carlos secchin:

afrânio peixoto, em 1919, teria sido o primeiro escritor do país a referir-se ao haicai, no prólogo a Trovas populares brasileiras, chegando ao exagero de afirmar que, no japão, o haicai “é uma sensação lírica que todos sentem e podem exprimir”. no brasil, o tanca, por sua vez acendeu a título de livro em 1961, com Tankas e haikais, de lyad de almeida (a rigor, nem uma coisa, nem outra.)

no tocante a teoria elaborada por guilherme de almeida para o haicai: particularmente não a uso e a considero desnecessária. pois o haicai é uma arte zen e descomplicada de teorias métricas e rimáticas. quem conhece o mínimo sobre literatura japonesa, principalmente a poesia, sabe que a rima é praticamente desusada na arte poética oriental. mas cada poeta é uma mente, mas, a meu ver, enquanto pesquisador do haicai, o método guilhermino não me é uma regra rígida e nem tampouco interessante chegando ao ponto de ser seguida. pois o rigor elaborado pelo poeta citado retira a simplicidade do haicai, esta sim, característica fundamental para a sua elaboração.

o haicai tradicional, do séc. xvi, não possuía título e nem usava letras maiúsculas.

a forma do haicai, para guilherme de almeida, além de conter título e letras maiúsculas, contem dezessete sílabas, divididas em três estrofes. a primeira e a terceira com cinco e a segunda com sete. sendo que a última sílaba da primeira estrofe deve rimar com a terceira e na segunda estrofe há uma rima “interna”. formando o seguinte esquema poético:

[Título]

– – – – a

– – b – – – b

– – – – a

exemplifico melhor fazendo uso de um dos seus haicais:

O pensamento

O ar. A bolha. A fuga.

No lago, um círculo vago.

No rosto, uma ruga.

parece que guilherme de almeida quis fazer do haicai um filho adotivo do soneto ao empregar-lhe o jogo de rimas com o título. guilherme é sempre visto como o introdutor desse gênero em nosso país. portanto ele é um pioneiro, mas nem por isso o melhor ou um dos melhores.

trecho colhido de um ensaio-apresentação-de-livro escrito por alice ruiz:

no ocidente, buscamos a novidade, a originalidade ao fazer poemas. mas esse conceito muda na poesia nipônica, até por se inspirar apenas na natureza que sempre se repete, ainda que de formas distintas. o poema japonês nunca fala sobre os pensamentos ou sentimentos do poeta. embora eles possam aparecer na escolha das imagens

ainda sobre ensaio de alice ruiz: não importa se as palavras e imagens se repitam em vários poemas, o que importa é que tais produções possuam sabor de haicai, pois de nada vale ter teoria se o poeta não estiver em contato, além-físico, com a natureza e suas representações.

o que sabemos hoje sobre os haicais de bashô, segundo paulo leminski, é graças aos seus diários. enquanto andarilho, e porquê não dizer: pregador das boas novas haicarianas, o poema anotava as suas impressões de viagem. anexava ou anotava junto em suas descrições os haicais que lhe ocorriam.

bashô não inventou o haicai, ele apenas o popularizou mais ainda e o descomplicou de regras rígidas.

o haicai está para a cultura oriental assim como o cordel está para a cultura nordestina brasileira.

o haicai é uma arte solitária, individual. também: breve e simplista.

sobre o conteúdo de cada verso contido no haicai paulo leminski em um ensaio biográfico sobre matsuó bashô, comenta:

o primeiro verso expressa, em geral, uma circunstância eterna, absoluta, cósmica, não humana, normalmente uma alusão à estação do ano, presente em todo haicai.

o segundo exprime a ocorrência do evento, o acaso da acontecência, a mudança, a variante, o acidente casual.

a terceira linha do haikai representa o resultado da interação entre a ordem imutável do cosmos e o evento.

logo, o começo do poema faz referência a um local ou a uma estação do ano. Sobre os locais é recorrente o uso de lagoas, casas, jardins, mares, árvore. Sobre a estação do ano, nem sempre é explicita, às vezes ela é supracitada com suas características, como por exemplo se fala sobre flores é claro que me refiro a primavera, se falo sobre um dia ensolarado me refiro ao verão, e por aí vai.

sol imenso lá fora

é dia – hoje não faço poesia

vivo o dia de sol

nydia bonetti

a temática desses poemas não se restringem apenas a desenhar verbalmente uma paisagem. o haicai pode abordar outras temáticas, até mesmo bashô fez isso, há poemas que falam de forma humorística, há os que abordam temáticas filosóficas, os haicais lírico-amorosas, os descritivos, os religiosos autobiográficos e por aí vai.

isto: solidão

do ser: mi(s)to do não-ser:

isto só lhe dão

– pedro xisto

o poema não deve ser uma vaga descrição verbal, mas sim, um olhar poético sobre determinado ponto. o olhar sem pressa e detalhado, retirando do que se vê: o lírico e o irreal.

alice ruiz comenta:

quando se aprende outra língua, também se aprende outra forma de pensar e até de sentir. quando se aprende outra escrita, se aprende outra forma de estar no mundo. quando se aprende uma forma poética distinta da nossa, se aprende outra forma de ser. e, se isso não vale para todas as formas poéticas, com certeza vale para o haikai.”

o tempo é importante para a linguagem haicairiana. Há sempre citações sobre o tempo: dia, noite, chuva, dia noblado, estação do ano, mês do ano, dia e mês do ano…

aristóteles em sua arte poética cita que o poeta não deve ser apenas mero copiador da vida, isso lembrando o conceito de mimese, o poeta deve apenas contar o que de fato aconteceu, mas sim fazer uso desse acontecimento e o recontar como ele poderia ter acontecido. um bom haicaísta possuí visão aguçada, como o poeta manoel de barros:

uma rã me benzeu

com as mãos

na água

o haicai deve ser igual ao ataque de um samurai: simples, profundo e mortal.

interessante o comentário de roland barthes:

o “referente” do haicai (aquilo que ele descreve) é sempre particular. nenhum haicai trata de uma generalidade, por conseguinte, o gênero haicai é absolutamente puro de todo processo de redução”

outra vez barthes: “o haicai é breve, mas não acabado, fechado.”

o haicai é a arte da espontaneidade. mas mesmo assim não há nada de errado em refazer seus poemas. o haicai aceita a reescrita. bashô dizia a seus discípulos que eles deviam reescrever seus poemas quantas vezes necessário. é a prática que leva ao aperfeiçoamento em qualquer ramo artístico. conforme r. h. blyth:

bashô não era um grande gênio de nascença. durante os primeiros quarenta anos de sua vida, não produziu nenhum poema que pudesse ser chamado de notável, ou mesmo bom. bashô abriu caminho até os mais íntimos domínios da poesia por puro esforço e estudo, estudo aqui não querendo significar o mero aprendizado, mas a concentração do haikai do sentido espiritual da cultura que ele herdara.”

(tradução: paulo leminski)

haicai: impacto visual.

sobre a poesia japonesa atente-se ao comentário de haroldo de campos:

o elenco visual na poesia japonesa é algo que lhe é intrínseco, que participa de sua própria natureza. não se trata, apenas, da metáfora visual, daquilo que ezra pound denominava “fanopeia” (“the throwing of an image on the mind’s retina”), mas de alguma coisa ainda mais essencial, que radica na própria estrutura do kanji, o ideograma chinês que os japoneses importaram para sua escrita na segunda metade do século III de nossa era. o kanji que evoluiu de uma fase pictográfica (desenho do objeto) para uma notação extremamente sintética e estilizada, é, em si mesmo, uma verdadeira metáfora gráfica, tanto mais complexa quanto mais “abstratas” as ideias a veicular, pois com este sistema de escrita se podem, como é óbvio, representar não apenas coisas do mundo real, como também emoções, sentimentos, etc. (daí a pertinência do termo ideograma ou representação gráfica de ideias).

priorizar um maior uso de substantivos que adjetivos. uso menor possível de conjunções.

o haicai segue as regras da arte do chá: harmonia; respeito; pureza e tranquilidade.

a linguagem utilizada nessa poética deve ser simples, a tal ponto que uma criança possa entender a gravidade lírica de um haicai. logo, um vocabulário bastante erudito invalida o poema.

O pássaro pousou no galho

– dançou três vezes –

e sumiu

– jack kerouac

o olhar para fora aguça o olhar para dentro.

mais uma vez barthes: “entre o haicai e a narrativa, uma forma intermediária, possível: a cena, a pequena cena.

brevidade. síntese da paisagem debruçada. retorno a si. inventividade linguística.

mais uma vez pesco trecho de ensaio sobre o haicai que roland barthes fez:

o haicai é desejado, isso significa que desejamos fazer um nós mesmos = prova decisiva (de amor): quando a gente mesmo quer fazer; do prazer do produto, infere-se um desejo de produção.”

o haicai segue contemporâneo devido a sua brevidade textual e intensa elaboração poética. ainda hoje ele é escrito e cultuado em nosso país, embora alguns se dediquem de mais e outros se dediquem de menos a sua elaboração.

Bibliografia

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: LeYa, 2013.

BARTHES, Roland. A preparação do romance – vol. 1. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BONETTI, Nydia. Sumi-ê. São Paulo: Patuá, 2013.

CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do improvável e outros ensaios. São Paulo: Perspectiva, 1969.

KEROUAC, Jack. Livro de haicais. Porto Alegre: L&PM, 2013.

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

MEIA-TIGELA, O Poeta de. Girândola. Fortaleza: Substânsia, 2015.

RUIZ, Alice; JABUR, Camila. Estação dos bichos. São Paulo: Iluminuras, 2011.

RUIZ, Alice. Outro silêncio. São Paulo: Boa companhia, 2015.

SECCHIN, Antonio Carlos. Papéis de poesia: Drummond & mais. Goiânia: Martelo, 2014.

TÁPIA, Marcelo. Súbitos de luz. In: XISTO, Pedro. Lumes: uma antologia de haikais. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008.

XISTO, Pedro. Lumes: uma antologia de haikais. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008.

O POETA DE MEIA-TIGELA: DISCÍPULO DE BASHÔ

Oh! Sábio foi Bashô. (Imagem retirada do livro Girândola, p. 13)

Bashô o poeta maior do haicai deixou ensinamentos em sua poética haicariana. Os poemas  dele sempre apontam para algo além de descrições paisagísticas sobre cada estação do ano no Japão. O haicai envolve além da disciplina o envolvimento de si com o outro (sendo esse outro uma paisagem, ou instante, ou memória, ou devaneio). Como também há um olhar mais emblemático para dentro de si próprio, até porque essa poética está enraizada na solidão.

O haicai é, sobretudo, uma prática solitária que cultua a síntese.

Podemos enquadrar Bashô também como um filósofo, dado que seus poemas também transmitem ensinamentos. Aliás ele também nos deixou uma coleção de pensamentos intitulada Regras para peregrinar. No entanto, o poeta que será comentado neste texto se denomina O Poeta de Meia-Tigela. Ele tem causado um reboliço na literatura cearense devido, não apenas por seus poemas, mas também pela figura mística que o cerca. Isso me faz lembrar Bashô, que também era reconhecido não apenas por suas habilidades poéticas, mas também por suas excentricidades, como por exemplo: viver como andarilho e ter sempre a companhia de seus discípulos propagando seus ensinamentos zem-haicais. Aliás Bashô é o pseudônimo poético adotado por Matsuó, Bashô significa “bananeira” em japonês, a escolha foi simples: essa era a planta que ele achava mais bonita. O Poeta de Meia-Tigela, pseudônimo usado por Alves de Aquino, faz referência, obviamente não a uma planta, mas a questões sociais, temática bastante abordada por ele em seus poemas (o lado social dele é bastante destacado nos poemas do livro Memorial Bárbara de Alencar e na seção A roda dos enjeitados presente na coletânea Miravilha: liriai o campo dos olhos).

Um é mestre no haicai e ex-samurai, o outro é mestre em filosofia e até onde se sabe não pratica, ou praticou, artes marciais ou se serviu o exército. O Poeta de Meia-Tigela, assim como Bashô foi, é professor e por ventura também possui os seus discípulos, estes acadêmicos e filósofos. Um dado interessante: o que une os discípulos de ambos é a literatura.

Bashô dava aulas de literatura e ministrava cursos sobre o haicai. O Poeta de Meia-Tigela já ministrou minicursos acadêmicos sobre literatura. Em dois desses minicursos eu estive presente, um sobre Dostoiévski e o outro sobre Júlio Cortázar.

Bashô, e muitos poetas do oriente, são desenhistas por natureza. O Poeta de Meia-Tigela já se aventurou nas artes plásticas, esse trabalho é bastante notório nos desenhos que servem como guia, ou desguia, para alguns de poemas.

Recentemente O Poeta de Meia-Tigela nos mostrou que é adepto a escrita de haicais. Todos  os poemas aqui citados se encontram no Girândola, especificamente nove haicais à lá Guilherme de Almeida, que até o momento não tinha entrado nessa história. Esse poeta revogou as origens tradicionais do haicai oriental para implementar o seu próprio estilo. Os haicais de Guilherme de Almeida, e seus adeptos, possui rima, título e metrificação rigorosa. Alguns autores brasileiros seguem rigidamente essas regras para formularem seus haicais, um deles é, o já tão falado pelo menos nesse texto, O Poeta de Meia-Tigela, veja:

Um haicai

Meu sangue se esvai

(e vão as gotas no chão

compondo um haicai)

            Esse sangue que escorre do poeta formando o haicai, nos faz lembrar os combates sangrentos que os samurais travavam. Aliás, muitos samurais eram cultivadores do haicais (um deles como já se sabe foi Matsuó Bashô). Há nesse poema também a descoberta da dor, tema tão debatido por monges budistas. Aliás, todo poeta tem um pouco de monge.

A vida campestre, bastante tematizada no oriente, é tema em outro poema de estro tigelírico:

Bem-São

Tudo é claridade.

Mas chove e a chuva comove:

Deus benze a cidade.

            No poema acima o poeta arrematou dois temas em um só haicai: Religiosidade e estação do ano. Alias, a religião nem é tão debatida em poemas orientais, até porque o budismo não é, pelo menos em sua essência, uma religião. Mas eu gostaria de observar um outro fator: notamos no haicai acima algo que perpetua a região nordestina: a religiosidade. Logo, temos em mãos um haicai que é clássico mas ao mesmo tempo contemporâneo. Sonoramente, ao ler o título do haicai ouvimos: Benção, o que evidencia mais ainda o caráter religioso-nordesdino do poema. As estações do ano nem sempre aparecem às claras. Ela está lá, mas de forma subliminar. Como no haicai comentado Bem-São em que o inverno aparece implicitamente através de sua qualidade mais expressiva: a chuva.

O haicai busca a simplicidade, a síntese, a paz e o encontro de si. Essas características se enquadram bem no que Bashô tanto pregava: a filosofia zen. Sentimos o espírito zen ao lermos:

O universo é Bom.

Seu tom é contínuo som

que ecoa em mim: Oommmm

            Nesse haicai encontramos a paz, a harmonia, a sintonia com o universo, a musicalidade, a filosofia… características essenciais para fabricar bons haicais e compreender o além-de-si. Isso nos mostra que o Poeta de Meia-Tigela às vezes se deixa ser o professor de filosofia Alves de Aquino, e sua filosofia se apresenta nos poemas descritos pelo personagem-autor do livro Girândola.

O ato de contemplar a natureza é importante para os poetas que seguem os rastros de Bashô. Se bem que O Poeta de Meia-Tigela segue o rastro métrico deixado por Guilherme de Almeida, mas diferentemente do poeta paulista, ele formula seus poemas à moda de Bashô e o saúda interligando o poema de cima com este:

Oh! Sábio foi Bashô

Vem Bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

E eu vos exorto: Sábios são Bashô e o Poeta de Meia-Tigela.

Melhor dizendo: Bashô Aquino.

***

OBS: 1. O livro Memorial Bárbara de Alencar foi editado inicialmente em 2008 e teve reedição com acréscimos em 2011.

  1. O livro Miravilha: liriai o campo dos olhos, foi editado e publicado pela Confraria do Vento em 2015
  2. O livro Girândola foi editado e publicado pela Substânsia em 2015.

Versos pingados

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O poeta, na verdade, é o artesão da palavra. Ele a molda tal qual um oleiro molda o barro. Assim me parecem ser os Versos Pingados de Mailson Furtado. Os poemas, aqui apresentados, seguem a moldagem do poeta-artesão que a articula e molda segundo a necessidade da expressão poética. Essa expressividade é construída por forma e conteúdo, lembrando que a estrutura palavresca é sempre importante para o campo poético, pois é ela quem sustenta todo o poema na página em branco.

Mailson, como todo bom observador, capta o mundo que há ao redor, registrando-o no campo navegável da página. Os Versos Pingados do poeta se dissolvem a medida em que ele os modela utilizando-se de múltiplas formas e brincadeiras com a palavra. Porém, este livro não é inundado por um sentimentalismo exagerado e gratuito, mas sim de uma coerente visão racional e precisa do instante, já que a poesia é a captação do momento e do (in)real.

Neste volume, há reflexos de uma linguagem oral e sertaneja, refletida e somada com a linguagem formal e culta. Mailson, artesão da palavra, utiliza-se da boa soma dessas linguagens para dar forma a sua própria expressividade. Isso me fez lembrar o que Arnaldo Antunes comentou em um de seus textos sobre poética, quando diz que “a origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem”. E não seria mesmo a poesia fruto da linguagem do povo? Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago já defendia a poesia feita e produzida a base de todos os campos linguísticos. Os Poetas Concretos também ‘batiam o martelo’ para a produção poética baseada na mimese sintáxica e morfológica. Eis a torneira por qual sai os versos de Mailson Furtado: a linguagem.

É interessante observar como o povo se sente melhor representado pelos poetas, pois ele, o poeta, se atribui da fala e cultura local para poder construir a sua própria linguagem. Sendo assim, Mailson Furtado é um íntegro representante de Varjota, sua cidade de origem.

No seguimento poesia este é o segundo livro de Mailson Furtado, estes Versos que pingam, gota a gota, na página em branco, formam um imenso mar navegável a barquinhos de papel: naveguemos eis!

Os golpes poéticos de Talles Azigon

O livro Três golpes d’água (Substânsia 2014), de Talles Azigon, pretendem golpear três coisas: 1) O homem externo a sua poética; 2) o leitor que convive dia a dia com o poeta e 3) os versos de Azigon pretendem golpear a si próprio. Sendo assim, conversemos sobre o livro do poeta seguindo as divisões demarcadas no livro.

1) O golpe no mundo dos homens

Na primeira parte do livro, como já disse, o poeta direciona os seus golpes literários àqueles que não conviveram diretamente com ele. São os homens desconhecidos, e solitários, que caminham por entre a multidão: o fortalezense. O poema que abre essa parte, poetiza a rotina de Fortaleza:

como um passe de mágica

a cidade faz dormir

todos os semáforos.

o caos instalado

obriga-nos a ler o óbvio:

os homens não se entendem,

por isso os sinais.

o mundo relembra

que é mundo

(de pedra, ferro, cimento e gente)

livroNa verdade o poema acima pode se aplicar a qualquer cidade. O homem “civilizado” necessita de leis para se governar e se organizar. Sem isso, o homem vive em um caos total. Alias, até com as leis vivemos em um caos. Os últimos versos nos fazem refletir sobre a composição concreta do mundo. O poeta segue as indicações de Manuel Bandeira, que sabiamente, fazia poemas a partir de recortes de jornal, ou, de recortes urbanos.

Na epígrafe do livro de Talles já notamos um dos sinais de influência da poesia de Manuel Bandeira:

Esse anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.”

-Manuel Bandeira

Tá certo que colocar uma epígrafe de um autor não indica que todo o livro tenha que, necessariamente, sofrer alguma influência do mesmo. Mas pelo pouco que conheço o poeta dos Três golpes d’água, sei que poderá haver sim um certo diálogo com a poesia de Bandeira. Pois Talles é leitor, full time, de Bandeira. A captação poética, da obra do poeta das Cinzas das horas, se apresenta na percepção do urbano, da conscientização da efemeridade da vida e das referências à memória pessoal do autor fortalezense.

A epígrafe da obra de Talles, sinaliza também a necessidade que o poeta tem de eternizar o que acontece ao seu redor em forma de poesia. No poema Arquitetura do cansaço, Talles a maneira de Alberto Caeiro, faz um poema filosófico sobre a ânsia de sair da cidade. O poeta nessa primeira parte da obra, se sente um cidadão à parte da cidade. E para Platão não há lugar para o poeta em sua república, Talles não encontra seu lugar e por isso despeja o primeiro golpe aos residentes da república/cidade.

2) Golpe no meu mundo

Na segunda parte do livro, Talles Azigon, dirrciona os seus golpes poéticos para si mesmo. Nessa parte encontraremos um poeta exposto que se auto-golpeia com a sua memória. Em um dos poemas, ele nos confessa que há dentro dele um sertão infinito. Essa infinidade interior dará vazão ao lado poético. Nessa parte do livro, desvendamos o sertão interior do poeta.

Sabemos que a introspecção só é válida quando não é transcrita de maneira pessoal, fazendo do poema algo particular, ou, mero recorte pessoal do poeta. Talles se utiliza da introspecção de maneira sutil, pois como todo bom poeta, ele sabe que uma dosagem a mais de introspecção, faria de seus poemas meros textos pessoais.

Concluo comentando que esta parte do livro é importante para o todo da obra, pois a poesia deve primeiro golpear o autor para depois acertar os futuros leitores.

3) Golpe no teu mundo

Comecemos nossa conversa sobre a última parte do livro de Talles, analisando brevemente o poema que abre o terceiro golpe:

fala

teu falo

é meu

falo

o

meu

também

é teu.

Inicialmente, o poeta declara que a sua fala é também a fala do leitor, assim como também a fala do leitor é a fala do poeta. Os golpes dessa sessão, na verdade são feitos por um eu-lírico que se universaliza a partir da sensibilidade do leitor. O lirismo, tão presente na obra de Bandeira, é presença marcante na obra de Talles. O poema abaixo golpeia qualquer leitor desprovido de armaduras:

Fui embora pra dentro de mim

fiz um furo aqui em cima

e deixei escorrer toda crendice

que eu ainda tinha de tu.

nada não,

o amor é assim mesmo

quando não amarga na entrada

amarga na saída.

Sem como se defender, o leitor é golpeado poeticamente nas páginas seguintes desta sessão e de todas as sessões do livro. Se por acaso você se machucar com os Três golpes d’água de Talles Azigon, leia novamente a obra, pois as sucessivas releituras funcionam como antídotos pós-términio de leitura.