Dois livros de Léo Prudêncio

Recentemente o canal Literatura&Eu  publicou um vídeo em que meus dois primeiros livros são comentados. Grato ao Daniel Coutinho pela postagem desse vídeo!

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Baladas para violão de cinco cordas – por Dércio Braúna

fotografia de Franck Santos
fotografia de Franck Santos

Caro Léo,

Sou partilhador de uma ideia: a de que o ato leitor é um desnudamento. Assim, falar desse ato, é expor aos olhos alheios essa nudez – tão íntima que é, pois que é nudeza de alma. Quando lemos, sobretudo se de poesia se trata, estamos assim a exibir esse incorpóreo corpo de nossa alma (seja lá o que essa entidade – e não falo dela em termos religiosos – possa ser).

Isto para dizer que as palavras que vão são senão um desses desnudamentos: exibir meu ato leitor a alheios olhos. E não quaisquer olhos, mas o do criador da criatura-palavra.

E começo pelo fim. Por palavras do Nathan vindas ao final do livro. Isto por que, como lhe disse, quando adquirir seu livro (fui ver a data que apus, e isso foi em 21/03/2015), li, esparsamente, aqui, acolá, mais adiante, alguns poemas. Por razões desse minha vida bancarística (trabalho na agência do Banco do Brasil daqui), guardei-o, e só tornei a ele esses dias. Pois bem: lendo-o agora, compreendi a sensação que tive então, e que vi sintetizada nas palavras de Nathan: de que os versos que li eram confessionais, jovens demais (talvez), ou, pelas palavras de Nathan, versos que careciam de uma “estabilidade”, de uma harmonia que não desafinasse em alguns de seus acordes.

Mas tinha razão ele: isso é impressão de leitura ligeira. Efetivamente Baladas para violão de cinco cordas se constrói em crescendo, como uma melodia que se vai harmonizando, que parece despretensiosa ao seu princípio, e que vai, em seu crescendo, ganhando arrojo e força.

A impressão da primeira leitura (rápida, esparsa), de tempos atrás, era a de que as palavras (a matéria-prima do fazer poético) poderia ser mais burilada, poderia ser mais talhada em dados pontos. Mas na leitura de agora, percebi o óbvio (que antes não percebi): trata-se de uma poesia em balada. Que na orelha do livro é definida como “objeto poético de caráter narrativo”. Era isso: trata-se de uma poesia que percorre outras veredas que as que mais me eram familiares. Talvez (decreto) viera daí a minha dificuldade primeira em captá-la.

Numa leitura à galope, não havia percebido coisas fortes, como, a exemplo: “não sei se sou de fato / essa ilha rodeada de mar / ou apenas / uma desconhecida constelação solitária” (p. 19). Coisas como estas me fizeram perceber algo na escrita “demasiado jovem” da minha primeira impressão: a consciência da finitude, do sermos momentâneos, que essa escrita, a priori “demasiado jovem”, agora me fazia perceber.

Um “confessionalismo” sentido à priori, agora ganhava outra dimensão. A leitura mais atenta me fez estacionar, para a ouvir, coisas como: “vivemos em um lugar / onde os corações são encaixotados / e jogados em um armazém / sem serventia” (p. 51).

À passagem do lado A ao lado B, um “desconcerto da palavra” (p. 65) se foi operando: as referências, a imagética, tudo foi ganhando uma melodia mais densa e mais solitária: “ando só como um elefante / à beira da morte” (p. 81). Não havia, nas baladas, um ídolo ante uma multidão, mas um poeta em sua solidão (“não sou o poeta das multidões”, p. 82), um sobrevivente só e seu “objeto tácteo” (o poema) [p. 84].

Essas miúdas palavras, caro Léo, querem em suma dizer que, após uma primeira leitura de apressado caminhar, em que a música de teu texto me pareceu “jovem demais”, meditada de menos, eis que agora essa se me mostrou, se fez ouvir, de forma mais harmônica, mais silenciosa dentro de sua melodia. O poeta que de princípio me pareceu pecar pelo excesso de confissão, pelo excesso de si, mostrou-se-me, afinal, esse poeta sabedor de que “as palavras existem para criar mundos” (p. 73).

Com o abraço fraterno deste escrevente-leitor,

Dércio Braúna

Nota sobre o livro “Baladas para violão de cinco cordas” no jornal literário “Nheçuano”

jornalLéo Prudêncio surpreende-nos com um livro original, em todos os sentidos: Baladas para violão de cinco cordas. O autor é jovem, nascido em São Paulo – SP, reside em Sobral, CE, e traz a chama artística de abrir novos caminhos. A originalidade do livro começa pela capa e segue pela formatação interior. Na capa encontramos logo a imagem de um antigo disco long-play; na contra-capa, a indicação do conteúdo do livro, distribuído em Lado A e Lado B. Esta divisão repete-se dentro do livro, significando a Parte I e Parte II em que se distribuem os poemas… O livro é de poemas, sim. Mas poemas com sugestões e sonoridades musicais, como se vê desde o título. A musicalidade das palavras é procurada e sempre lembrada pelas imagens que permeiam o livro todo, alertando para cordas e violões. É livro de se deliciar, em estesia, e nome de poeta pra se anotar e guardar.

(Jornal  O Nheçuano, nº 24, ano 6, janeiro/fevereiro 2015)

A solidão entre baladas

Baladas para violão de cinco cordas

por Nathan Matos

Os poetas jovens tendem a falar de temas relacionados ao amor, ao sonho e à esperança de viver. Na maioria das vezes, tais temas nos levam a desacreditar nesses poetas por acharmos que devem dar mais tempo aos seus versos e tentar repensar o mundo, de uma maneira diferente, onde nem tudo o que acontece são maravilhas ou deveriam ser. Que a esperança pode, com muita facilidade, não existir e que as dores do mundo estão a nos incomodar quase que diariamente; e que existem muitas outras abstrações, digamos assim, que deveriam nos preocupar.

Léo Prudêncio é um desses jovens, porém com um diferencial. Há alguns anos, li os poemas do poeta e percebi neles o que mencionei. Faltava-lhe uma “estabilidade” no texto, havia, em certo sentido, muito sentimento, apenas. Como se agisse comandado apenas pelo sentir ou pela inspiração.

Apesar de acreditar em que bons textos podem surgir sob o efeito anestésico dos sentimentos ou sob o efeito da musa inspiradora, e de momentos de epifania também, creio que o trabalho do poeta deva existir de maneira que consiga não driblar os sentimentos, mas complementá-los com nossa razão.

Esse é o problema de vários escritores, pois creem que apenas o sentir é necessário para a escrita. Ao lermos um Manoel de Barros ou um João Cabral de Melo Neto, poderíamos pensar em afirmar que conseguiríamos apontar com certeza qual deles usou apenas a razão ou o sentimento com maior afinco. Seria pura ingenuidade fazê-lo. A poesia não se constrói apenas com momentos epifânicos nem com pura racionalidade, mas sim com a observação da vida que acontece em tudo e em todos e quase sempre acompanhada de atos reflexivos, ou não. Portanto, é quase impossível, a meu ver, separarmos esses dois “seres”.

Em Baladas para violão de cinco cordas temos um pouco de cada, com uma harmonia que, por vezes, desafina e afina, como estivéssemos a ajustar o tom das melodias que irão ser tocadas. Partindo de tragédias, como a vida de Chico – presentes desde os primeiros versos-acordes do livro – à ironia, que traz certa pitada de vida, pode-se afirmar que o poeta deste livro “anda perdido”, mas apenas enquanto toca os seus versos nas nuvens que o formam. Perdido entre baladas que tocam não apenas o seu íntimo, mas o da vida que o rodeia.

Léo Prudêncio toca em temas caros a qualquer leitor de poesia e aos escritores que começam a desejar enveredar pela escrita. O amor e o sonhar são mais do que vivos em seus poemas. Contudo, perguntaria o poeta: será isso tudo clichê? É para essa resposta que devemos ater detalhadamente a nossa percepção.

O poeta entende que temas como esses não devem ser deixados de lado, apenas porque a crítica, propriamente, já não os quer presentes em poemas. O clichê deve ser retomado e talhado com certa originalidade que cabe apenas àqueles que escrevem sozinhos entre as multidões.

Os poemas-clichês, chamemos assim alguns dos textos aqui encontrados, apontam para algo desconcertante, como frases que surgem ao fim dos poemas e que, além de nos interpelar em outra língua, como no segundo poema do livro, nos deixam desconcertados por perceber que nem tudo é o que se lê. A desconstrução está colocada com precisão para que não nos ludibriemos pela melodia dos versos e para que não nos deixemos levar pela simples ilusão dos temas clichês, que em alguns poemas se fazem presentes.

Na verdade, tudo está estruturado para nos desconcertar, nos deixar imprecisos quanto à existência da vida. Parece ser esse sob este sentimento que o poeta compõe sua balada. Ele parece querer nos manipular, assim como fazia Orfeu com os pássaros e os animais selvagens, fazendo assertivas que nos deixam, apesar de compenetrados, confusos e duvidosos, como a que diz que o poeta é um “desespectador da vida”. Parece que Léo Prudêncio segue bem as indicações de um ilustre poeta português, em que afirmava que o poeta é sempre responsável pelo fingir. Iludir, portanto, poderia ser um ato mágico, mas é também poético.

Além da falsa ilusão criada pelas palavras lançadas através dos versos harmoniosos de Léo Prudêncio, há certa disposição de aspectos gráficos visuais, mostrando a habilidade do poeta em não exagerar utilizando a influência que aparenta ter do concretismo, como bem é possível observar no poema espólio, que nos direciona para uma cruz que simboliza nossa perdição, nossa rendição ao esquecimento.

Poemas como horizonte ou guitar solo deixam evidente a preocupação que o poeta teve em meio aos poemas amorosos, que surgem como ervas daninha no jardim dos críticos, aos poucos, como em eu e minha pequena, deixar claro que nem tudo o que se lê é ilusório. Mostra, através desses poemas, que razão e sentimento encontram-se muito bem alinhados, como a sequência de notas que são criadas para suas Baladas para violão de cinco cordas.

O que deverá ter sido apreendido por você, leitor, é o toque de inocência que existe na confessionalidade do poeta, deixando parte de si no livro, relatando, quem sabe, sua infância e a escrita, na qual as nuvens, as páginas em branco, eram o seu brinquedo favorito, onde “desenhava soldados, carros e animais”.

E através dessa infância, que não se deixou ser levada pela memória, ao contrário dos amores vãos, sugere que sempre haverá os que duvidaram da vida, por que é certo que muito há a se perder no caminho até a morte. Mas é assim que vai “reformulando o peso do mundo / transfigurando / o real em sonetos”.

A vida do poeta é construída através dos poemas, assim como constrói os seus versos, sua balada, seu caminho entre as multidões. Léo Prudêncio não está entre as multidões, pois ele acredita que “o poeta está só” e sempre só, quando a revolver em si os sentimentos e os momentos vividos, para que quem sabe um dia seus poemas possam chegar até o leitor mais arredio “como um navio chegando d’além mar”.

Ode à Sulamita

Eu dormia, mas o meu coração velava; e eis a voz do meu

amado que está batendo (Cantares de Salomão 5:2)

I

eu não dormi aquela noite

passeei pela noite seguindo o ritmo

das batidas cardíacas de minha amada.

a voz de minha amada

é a força motora de meu barco a vela.

navegar em seus lábios

é melhor que o vinho.

minha amada é como a pomba

não a prendo em minhas mãos.

ela é delicada, linda, graciosa e sutil

como a mirra exposta ao sol.

II

assim como as muralhas de jerusalém

os braços de minha amada me protegem.

ela me afaga com o mesmo cuidado

que um pastor afaga as suas ovelhas.

o seu corpo é o meu telhado

num dia de chuva,

o seu cabelo é mais cheiroso e afável

que os campos do Líbano.

que deus me perdoe

por ter escrito o nome de minha

nos caules dos cedros de meu jardim.

III

minha amada é majestosa

como os montes moriá, sião e sinai.

os braços de minha doce e amada sulamita

são navegáveis e afogáveis

como o mar mediterrâneo.

a sua presença é mais refugiosa

que estar em en-gedi.

IV

ela é a fonte dos jardins

ela é a força dos cavalos

ela é o eco das cavernas

ela é o horizonte

ela é o azul do mar

ela é o sol se pondo

ela é minha amada

sulamita.

Esse poema teve a honra de ter sido publicado na revista 7 Faces (Natal – RN). Ode a Sulamita também compõe as Baladas para violão de cinco cordas

O link para baixar a revista 7Faces e conferir este e outros poemas é:

https://docs.google.com/file/d/0BxyJDvv3Phxmdm5BZ1YtNDFlX3M/edit

As baladas de um jovem poeta

Por: Bruno Paulino

Acabei de ler o originalíssimo livro-disco de estreia do poeta Léo Prudêncio “Baladas para violão de cinco cordas”. O titulo e a obra como um todo me fizeram lembrar-se de um poema do simbolista Cruz e Sousa “violões que choram”:

“Ah! plangentes violões dormentes, mornos,/ soluços ao luar, choros ao vento…/Tristes perfis, os mais vagos contornos,/ bocas murmurejantes de lamento./ Noites de além, remotas, que eu encontrorecordo,/noites de solidão, noites remotas/ que nos azuis das Fantasias bordo,/ vou constelando de visões ignotas.”

Dialogando através do tempo, num primeiro olhar, pode se constatar que tanto o poema de Cruz e Sousa como o livro de Léo Prudêncio são carregados de dolências plangentes. Sendo movido pela crença que “ser poeta é absorver as dores do mundo” Léo o “poeta que está só” constrói a narrativa da vida do personagem Chico, refugiando-o num universo imaginário, refletindo uma filosofia do nada, da desesperança e do ceticismo. Elegendo nesse percurso como trilha sonora e colocando na vitrola grandes nomes da música pop, assim como também ao caminhar, o faz sempre dialogando com renomados pensadores da historia universal.

Desse modo as baladas-poemas que compõe o volume são dormentes, tristonhas, chorosas, e por vezes ritmadas com a melodia cortante do humor e da ironia, fazendo da meditação metafísica de Chico uma rejeição clara a lógica da sociedade burguesa. Por fim só nos resta parabenizar o poeta por sua dedicação à literatura, assim como também pelo excelente livro que publica, que de igual modo como a boa música, nos toca, acarinha e nos aguça ao ato de refletir, e claro, sentir o mundo com outros riffes.

comentário de Badida Campos sobre o livro ‘Baladas para violão de cinco cordas’

Marisa Moreira da Costa Campos - Badida-Picture0003

Amigo Léo Prudêncio:  recebi ontem à tarde o seu livro “Baladas para violão de cinco cordas”. Li de um só fôlego. Gostei muito. O livro está repleto de achados poéticos. Moderno e dulcíssimo. Em “Espólio” vc. finda com uma grande verdade: “Tudo o que sobrará de mim, serão essas pegadas deixadas na praia q. logo, logo serão apagadas, assim como nós.” 

“Epílogo”: “Envelhecer é deixar de sonhar.” Perfeito !

“Eu e minha pequena”: “Ela é glamorosa (como os solos de George Harrison)”. Põe glamour nisto! E por falar em G. Harrison sou encantada com a música “My sweet Lord”.

E esta delícia de frase: “Queria ser um pássaro e ser amigo do céu.”

Em “O Mar”- “Uma lágrima passeia sobre meu rosto e encontra-se com o mar…” Lembrei desta frase do poeta português: “Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”. 

Gostei muito da expressão “pagão natal”. Resumiu toda a dissertação sobre o Natal.

Parabéns, Léo. De verdade. E olhe que eu sou exigente quando se trata de Literatura.

Que venham mais livros.

Obrigada pelo presente, filho.

Abraço grande.

Badida 

(Badida Campos, artista plástica)