MODALIDADE CLÁSSICA DE PULO NO ABISMO (poema de Leonardo Fróes)

O conhecido, que permaneceu carregado
de dúvidas, tirou um mapa da carteira e mostrou.
Cortando a estrada principal, onde o mapa
fora dobrado tantas vezes,
havia agora um rasgo no papel que era
um abismo largo para o forasteiro pular.
“Quero ver”, pensou o inimigo embutido
na timidez. O conhecido perguntou outras vezes,
outros responderam que não, e alguns teimaram.
O forasteiro, sem sair do lugar, mas com atenção
e permanecendo de fora, deu um passo,
achou a solução para transpor o buraco: foi voando,
é claro, enquanto a discussão prosseguia,
e viu o tungstênio queimando. Ao queimar 76
no relento do prolongamento da estrada, a outra ponta
além do rasgo, ao dormir tão longe, ele imaginava
o conhecido ali naquela sala apertando
mãos, ouvindo nãos, mostrando o mapa, conhecendo pessoas
e opiniões. Considerando que seria ousadia,
pretensão ou ultraje, voar, como ele fez, para a fonte
sem mover os olhos, sem medir a distância,
sem acreditar.

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É primavera, crônica de José Luís Lira

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Conforme o calendário, às 17h02min de 22/09, teve início a Primavera 2017 que terminará em 21/12/17, às vésperas do Natal do Senhor. A primavera, conforme o informativo, é a estação que antecede o verão e sucede o inverno. No Hemisfério Sul, onde está localizado o Brasil, esta estação é caracterizada pelo desabrochar das flores e pela elevação da temperatura. Aqui no Ceará somos acostumados ao período chuvoso e ao período seco. Mas, a primavera enche os olhos. Até já fiz poemas sobre a perfeição, beleza e efemeridade da flor, da rosa.

Então, é primavera! Aqui no Ceará sempre achei que a primavera fosse em maio, mês das mães, das noivas, sempre tão florido por conta das chuvas que terminavam em abril. De certo modo tinham o mesmo sentido. Hoje vejo a primavera em seu mês real, setembro, e um pouco antes que ela chegasse participei de uma palestra interessante intitulada a “Linguagem eterna e apaixonante do livro”, ministrada pelos confrades Lêda Maria Souto e Jeff Peixoto, durante evento da Academia Fortalezense de Letras (da qual fui fundador junto com Matusahila Santiago). As rosas, as flores, sabemos nós, duram pouco, mas, encantam a vida. Ao contrário, o livro permanece por gerações e gerações. Com muita habilidade, os escritores falaram de um amigo comum a palestrantes e ao público presente, o livro impresso.

Há alguns dias em minhas mãos e merecendo comentários, envolvendo a temática, li, com alegria, o livro “Girassóis maduros”, de Léo Prudêncio. Envolvendo o outono e a primavera, o poeta inicia dizendo que seu verso “parte do silêncio e do voo”. “Observando o silêncio das árvores”, lembra o “velho ipê”, “abrigo de pássaros”, verdadeiro “asilo a céu aberto”. Diz ele, “Expirou o prazo/ da primavera, mas ainda/ há flores em meu jardim”.

Com sensibilidade poética o autor enuncia: “Aqui jaz o silêncio/ a última flor desabrochou/ repara na roseira/ Sinto cheiro de sol/ mas só os girassóis do meu/ quintal se enchem de luz”. Ainda assim, “estrelas/ pousam nos galhos do velho/ carvalho”, em segredo, quem sabe aguardando “o recital que a chuva nos oferta”, pois, ao amanhecer, “a flor orvalheceu”.

Percorrendo os locais da infância, lembro-me dos campos floridos com seus arbustos e flores selvagens que ninguém cultivava, mas, que possuem beleza infinda, lembrando o evangelista Mateus, “Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam”. É obra de Deus. E eu, menino, ficava muito feliz porque, na minha cabeça, a natureza se enfeitava para receber o Rei dos Reis, Jesus, fonte de toda a beleza e amor tão necessários dia-a-dia!

É primavera. Começamos os meses terminados com “bro” que irão até dezembro. Dizemos, aqui no Ceará, os meses mais quentes; mas, também os dois meses que preparam a festa do Natal do Senhor, o nascimento de Jesus. E por falar em Menino Jesus, lembrei-me, de logo da Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, cuja festa se celebra em 1º/10. Ela prometeu-nos uma chuva de rosas e se constitui a flor mais linda e bela da Ordem do Carmelo. A primavera não é apenas uma estação temporal, mas, também, de nossa própria vida. Então, incorporemos a beleza desse momento e busquemos a felicidade, pois, como dizia Drummond, “felicidade é um estado de espírito transitório por natureza”.

Girassóis Maduros, por Livro in Cena

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Foto: Livro in Cena 

Girassóis Maduros

Léo Prudêncio
Páginas: 68
Editora: Moinhos
.
“Ainda voltarei a ser chão
Para que por sobre mim brotem
Árvores flores e rios
.
De volta para casa:
Ao casulo que me protege
Da solidão das chuvas”
.
Uma pequena amostra do poema que faz parte da obra Girassóis Maduros do escritor Léo Prudêncio. Nascido em São Paulo, passou mais de 20 anos morando no Ceará a atualmente reside em Goiânia que virou palco vivo de sua bela poesia.

Embora o livro conte com apenas 68 páginas, as palavras são demasiadamente tocantes, e sua harmonia com a natureza é pluralizada em palavras que tocam o pensamento do leitor como um leve galho que balança movido por uma agradável brisa.

Tudo se transforma em poema, em palavras intensas que parecem sugar o isolamento e jogar para longe vestígios de uma alma solitária, tornando tudo mais ameno e contemplativo.

Uma encantadora edição da editora Moinhos que vem produzindo obras marcantes com uma taxa filosófica receptível e de fácil alcance para aqueles apaixonados por expressões enternecedoras.

Leonard Cohen

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Ei, não se diz adeus dessa forma
Leonard Cohen

Eu a amei pela manhã
Com beijos ardentes e profundos
E aquele cabelo dela sobre o travesseiro
É como uma sonolenta tempestade dourada
Muitos amaram antes de nós
Eu sei que não somos originais
Na cidade ou na floresta
Eles não sorriem como nós
Mas agora com a chegada da distância
Que ambos devemos tentar
Seus olhos estão úmidos de tristeza
Ei, não se diz adeus dessa forma

Eu não estou procurando por outra
Tanto quanto me perco pelo tempo
Caminho por esquinas
Em que nossos passos eram ritmados
E você sabe que o meu amor está em você
Assim como o seu está em mim
É apenas o caminho que tomou outro rumo
Como a costa litorânea e o mar
Mas não falemos sobre amor ou correntes
E coisas que não podemos desatar
Seus olhos estão úmidos de tristeza
Ei, não se diz adeus dessa forma

Eu a amei pela manhã
Com beijos ardentes e profundos
E aquele cabelo dela sobre o travesseiro
É como uma sonolenta tempestade dourada
Muitos amaram antes de nós
Eu sei que não somos originais
Na cidade ou na floresta
Eles não sorriem como nós
Mas agora com a chegada da distância
Que ambos devemos tentar
Seus olhos estão úmidos de tristeza
Ei, não se diz adeus dessa forma

(TRADUÇÃO MINHA)

Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Leonardo Prudêncio

Philos

Breviário do mar

1.
o meu eco se perdeu no vazio mar
após o urrar das ondas
aqui estou:
em silêncio
solitário
e
imóvel
daqui da areia
observo a nuvem a passar
e a água a se perder no mar
ainda fico em silêncio
resoluto
eu:
observo o nada vagar por entre meus dedos
adeus terra
adeus mar
adeus vida mansa
2.
longe do céu
mas próximo do chão
somos todos partículas
de pó e solidão
mas mesmo ao longe
a solidão das estrelas
ainda me comove
3.
procurei teu amor
em
cores
luzes
e
alfazemas
enlaçado estou e preso fui em tua teia
o meu coração, cheio de clichê e dor, ainda pulsa sem ti
4.
água que vai
e vem
no rebolar
dos verdes mares bravios
o mar se perdeu no tempo
por onde anda minha Iracema?
aqui me vou:
longe de ti busco um…

Ver o post original 66 mais palavras

Girassóis maduros, por Mailson Furtado

“Grande Léo, pelo que vi tua poesia desceu a Meruoca e desembarcou no Planalto Central, onde encontrou o outono e primavera, ainda distantes do Ceará. Tua aquarela(s), trouxe de passarinho em passarinho, cada galhozinho, cada semente, para que as árvores e girassóis hoje se apresentem maduros. Teus haicais caem como sementes por entre os dedos a se entranhar no solo adentro e metaforizar as mais singelas figuras que a natureza foi capaz de inventar, obrigado meu amigo pelas sensações,parabéns pela poesia tão difícil de encontrar pelos nossos dias.”

(Mailson Furtado, poeta e dramaturgo)

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Inéditos na Revista Propulsão

Revista Propulsão
http://www.revistapropulsao.com

 

Goiânia às cinco da tarde

cidade tua solidão me invade
hoje eu sou todo saudade
daquele verde mar e num
vazio quase intocável o
o mundo fez-se de luz

mas eu também sou
essa cidade em ruínas
eu também sou
essa alegria latina

Cantiga de amigo

Conte-me pequeno ramo de flores
traz notícias de meu amado
a quem há muito espero
            em meus braços?
Sei que as árvores comunicam pelo silêncio
não arredo de minha agonia, não dou passos
para trás.
Diz-me flores da acácia
porquê ouço a voz de meu amado
quando o vento corta por entre teus galhos?
            Mas não o vejo
            não o toco
            não o beijo...
Aquieta-me flores do verde pinho
sempre que volto pra casa a ausência dele
me devora, como uma cigarra devora o silêncio.

 

Girassóis maduros, por Alessandra Bessa

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A poesia desse livro é como uma chuva que vai escorrendo pelos olhos do leitor e vai brotando orvalhos de múltiplas sensações. De leve toque panteísta, o eu-lírico nos faz sentir que a natureza é um lugar que nos habita, nos reflete e nos transforma: somos a própria natureza. Esse lugar nos faz entender a nós mesmos e os outros. Ele diz:

observando o silêncio

das árvores compreendi melhor

a solitude dos monges

Assim, os belos versos são plantados na terra de Goiânia e nascem no despontar do sol. Observe:

goiânia é uma solidão

marchando a cavalo pela

anhanguera

(…)

daqui da janela

avisto que o sol raiou –

menos eu e o girassol

Com isso nos deparamos com flores diversas de cheiros di(versos), banhados na filosofia do tempo, que reflete sua solidão: a metafísica dos silêncios e das sombras nos momentos vividos pelo poeta. Léo Prudêncio nos faz compreender o mistério que nos liga a substância dos girassóis, pois a própria imagem do girassol é um lugar em nós mesmos – uma criação nossa – uma sutil poesia que desponta em momentos inesperados. Como os girassóis – que seguem o movimento do sol e declinam na noite – o eu-lírico é imerso em sensações contraditórias que ora negam e ora afirmam os sentimentos em seu interior.

O livro é uma árvore cheia de galhos, flores e frutos. Os haicais são os galhos que despontam infinitamente e constroem a árvore/poema (que tem a solidão como adubo para o nascer de suas flores). O poeta diz:

envelhecemos:

eu e o pé de abacate:

sólida solidão:

Tudo, dentro do poeta, é passageiro, como o vento, como as nuvens e como as aves que fogem no caminho do céu. Mas há uma sutil cadência que o faz estar em harmonia com a natureza… onde o passado é uma impressão da memória, onde o passado está sempre se reconstruindo no chão onde pisa o poeta: na dor que o enlaça, na lua passageira, na reflexiva chuva cristalina e no próprio transcorrer da vida. Observemos mais um galho/poema:

a poesia floresce

do chão. habita nas asas

de algum pássaro

(…)

esse voo alento

de folhas e flores são ruínas

da estação passada

Nesse sentido o inesperado, que toma o poeta, é a marcha daquilo que pode se tornar poema. Tudo é poema e gira… gira… sol… girassolidão… que vai maturando suavemente no tempo o entender do (uni)verso.

observo ao longe

uma estrela se despindo

de silêncio

O silêncio é um mágico lugar! Ele grita e diz muito! O silêncio atinge a alma dos seres e está no interior e exterior do poeta e pode virar música e pode virar dor.

Os poemas possuem um eu-lírico exótico e contemplativo que não pode agir de outra maneira a não ser meditando acerca dos mistérios das coisas. Com isso as palavras são um microcosmo, um lugar habitável, uma dimensão livre e cheia de múltiplas estações. Há uma mescla do mundo/sonho com o que está sendo buscado na expressão da escrita:

uma estrela cadente

caiu sobre o papel. ilusão

passageira do poema

Há, portanto, um universo que se condensa com a poesia e traz imagens que penetram nas suas veredas. Percebemos que a natureza está no interior do poeta e o interior do poeta está na natureza. Com isso o lugar metafísico de Girassóis Maduros nos convida a olhar de maneiras diferentes as nuances das coisas.

Essas imagens podem girar e se fragmentar, pois não possuem começo nem fim. É a própria extensão da vida, já não é dado a compreender como foi origem do mundo e para onde vamos… porém nós (gi)ramos e (ge)ramos um lugar a contemplar, um mundo próprio. Dessa maneira o livro nos possibilita brincar de vida e escolher os poemas na ordem que quisermos.

A palavra, tudo que existe dentro das certezas:

a palavra me

continua para quando

eu for. é tudo o que sei

A palavra é o mundo que realmente existe. Somos a própria palavra e cada ser é a sua própria morada da palavra que constroem as cadências de seu mundo… e só é rompido quando este se depara com o amor:

alguém escreveu

no caule do pé de romã:

amar é renascer

(Romã) anagrama de amor. Pé de amor (ao contrário). O amor inverte o mundo que é plantado e é cheio das verdades humanas. O homem é um Girassol – e o amor é o que o gira – e que o faz aos poucos amadurecer diante da imensidão de si mesmo. Compreende a natureza que existe dentro do seu interior e que tudo está em seu interior e deve ser amor. Mas o poeta é sempre um lugar inacabado, como diz Léo, olhando pro tempo:

eu sou uma sucessão

de verões inacabados

oásis de mormaços

Já que a sua poesia é o amor pela vida e o faz navegar nos detalhes dos seres, que verdadeiramente tocam o seu coração. Com isso Léo lança mão de ser homem-humano e volta a essência das coisas:

ainda voltarei a ser chão

para que por sobre mim brotem

árvores flores e rios