Girassóis maduros, por Mailson Furtado

“Grande Léo, pelo que vi tua poesia desceu a Meruoca e desembarcou no Planalto Central, onde encontrou o outono e primavera, ainda distantes do Ceará. Tua aquarela(s), trouxe de passarinho em passarinho, cada galhozinho, cada semente, para que as árvores e girassóis hoje se apresentem maduros. Teus haicais caem como sementes por entre os dedos a se entranhar no solo adentro e metaforizar as mais singelas figuras que a natureza foi capaz de inventar, obrigado meu amigo pelas sensações,parabéns pela poesia tão difícil de encontrar pelos nossos dias.”

(Mailson Furtado, poeta e dramaturgo)

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Inéditos na Revista Propulsão

Revista Propulsão
http://www.revistapropulsao.com

 

Goiânia às cinco da tarde

cidade tua solidão me invade
hoje eu sou todo saudade
daquele verde mar e num
vazio quase intocável o
o mundo fez-se de luz

mas eu também sou
essa cidade em ruínas
eu também sou
essa alegria latina

Cantiga de amigo

Conte-me pequeno ramo de flores
traz notícias de meu amado
a quem há muito espero
            em meus braços?
Sei que as árvores comunicam pelo silêncio
não arredo de minha agonia, não dou passos
para trás.
Diz-me flores da acácia
porquê ouço a voz de meu amado
quando o vento corta por entre teus galhos?
            Mas não o vejo
            não o toco
            não o beijo...
Aquieta-me flores do verde pinho
sempre que volto pra casa a ausência dele
me devora, como uma cigarra devora o silêncio.

 

Girassóis maduros, por Alessandra Bessa

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A poesia desse livro é como uma chuva que vai escorrendo pelos olhos do leitor e vai brotando orvalhos de múltiplas sensações. De leve toque panteísta, o eu-lírico nos faz sentir que a natureza é um lugar que nos habita, nos reflete e nos transforma: somos a própria natureza. Esse lugar nos faz entender a nós mesmos e os outros. Ele diz:

observando o silêncio

das árvores compreendi melhor

a solitude dos monges

Assim, os belos versos são plantados na terra de Goiânia e nascem no despontar do sol. Observe:

goiânia é uma solidão

marchando a cavalo pela

anhanguera

(…)

daqui da janela

avisto que o sol raiou –

menos eu e o girassol

Com isso nos deparamos com flores diversas de cheiros di(versos), banhados na filosofia do tempo, que reflete sua solidão: a metafísica dos silêncios e das sombras nos momentos vividos pelo poeta. Léo Prudêncio nos faz compreender o mistério que nos liga a substância dos girassóis, pois a própria imagem do girassol é um lugar em nós mesmos – uma criação nossa – uma sutil poesia que desponta em momentos inesperados. Como os girassóis – que seguem o movimento do sol e declinam na noite – o eu-lírico é imerso em sensações contraditórias que ora negam e ora afirmam os sentimentos em seu interior.

O livro é uma árvore cheia de galhos, flores e frutos. Os haicais são os galhos que despontam infinitamente e constroem a árvore/poema (que tem a solidão como adubo para o nascer de suas flores). O poeta diz:

envelhecemos:

eu e o pé de abacate:

sólida solidão:

Tudo, dentro do poeta, é passageiro, como o vento, como as nuvens e como as aves que fogem no caminho do céu. Mas há uma sutil cadência que o faz estar em harmonia com a natureza… onde o passado é uma impressão da memória, onde o passado está sempre se reconstruindo no chão onde pisa o poeta: na dor que o enlaça, na lua passageira, na reflexiva chuva cristalina e no próprio transcorrer da vida. Observemos mais um galho/poema:

a poesia floresce

do chão. habita nas asas

de algum pássaro

(…)

esse voo alento

de folhas e flores são ruínas

da estação passada

Nesse sentido o inesperado, que toma o poeta, é a marcha daquilo que pode se tornar poema. Tudo é poema e gira… gira… sol… girassolidão… que vai maturando suavemente no tempo o entender do (uni)verso.

observo ao longe

uma estrela se despindo

de silêncio

O silêncio é um mágico lugar! Ele grita e diz muito! O silêncio atinge a alma dos seres e está no interior e exterior do poeta e pode virar música e pode virar dor.

Os poemas possuem um eu-lírico exótico e contemplativo que não pode agir de outra maneira a não ser meditando acerca dos mistérios das coisas. Com isso as palavras são um microcosmo, um lugar habitável, uma dimensão livre e cheia de múltiplas estações. Há uma mescla do mundo/sonho com o que está sendo buscado na expressão da escrita:

uma estrela cadente

caiu sobre o papel. ilusão

passageira do poema

Há, portanto, um universo que se condensa com a poesia e traz imagens que penetram nas suas veredas. Percebemos que a natureza está no interior do poeta e o interior do poeta está na natureza. Com isso o lugar metafísico de Girassóis Maduros nos convida a olhar de maneiras diferentes as nuances das coisas.

Essas imagens podem girar e se fragmentar, pois não possuem começo nem fim. É a própria extensão da vida, já não é dado a compreender como foi origem do mundo e para onde vamos… porém nós (gi)ramos e (ge)ramos um lugar a contemplar, um mundo próprio. Dessa maneira o livro nos possibilita brincar de vida e escolher os poemas na ordem que quisermos.

A palavra, tudo que existe dentro das certezas:

a palavra me

continua para quando

eu for. é tudo o que sei

A palavra é o mundo que realmente existe. Somos a própria palavra e cada ser é a sua própria morada da palavra que constroem as cadências de seu mundo… e só é rompido quando este se depara com o amor:

alguém escreveu

no caule do pé de romã:

amar é renascer

(Romã) anagrama de amor. Pé de amor (ao contrário). O amor inverte o mundo que é plantado e é cheio das verdades humanas. O homem é um Girassol – e o amor é o que o gira – e que o faz aos poucos amadurecer diante da imensidão de si mesmo. Compreende a natureza que existe dentro do seu interior e que tudo está em seu interior e deve ser amor. Mas o poeta é sempre um lugar inacabado, como diz Léo, olhando pro tempo:

eu sou uma sucessão

de verões inacabados

oásis de mormaços

Já que a sua poesia é o amor pela vida e o faz navegar nos detalhes dos seres, que verdadeiramente tocam o seu coração. Com isso Léo lança mão de ser homem-humano e volta a essência das coisas:

ainda voltarei a ser chão

para que por sobre mim brotem

árvores flores e rios

quando o verão chegou vindo do mar (tómas guðmundsson)

Quando o verão chegou vindo do mar
trazendo o sol para na cidade brilhar,
envolvendo em seu coração o mundo,
conheci o meu amor mais profundo.

E fomos, de mãos dadas, cantando,
verão ao coração jovem inspirando,
e o mais belo dos os poemas meus
eu o li e o transcrevi dos olhos teus.

Pese haja sombra nos vales, baías,
aos nossos amores, deleite e alegria
a gloriosa estrela no céu incendeia
mesmo quando a voz da brisa rareia.

Que têmpera nos dê o frio penoso,
e que o fogo nos aqueça, amoroso.

tómas guðmundsson

[tradução do islandês: Luciano Dutra]

Girassóis maduros, por Ayla Andrade

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Ler girassóis é tarefa para poucos. Ler girassóis (e não quaisquer girassóis) mas os maduros requer algumas habilidades. A primeira: ser poeta de natureza, mas da natureza observável das coisas. Segundo, um silêncio próprio, como o caramujo solitário, mochileiro errante ou como na definição do escritor para poeta: arquipélago entre paredes de folhas brancas.

Em versos/haicais Léo Prudêncio nos apresenta a felicidade da descoberta matutina entre sóis, jacarandás, pássaros e depois a solidão descontente e saudosa de quem sabe a dor da palavra. A natureza é irascível como a poesia. Mas Girassóis Maduros deixam sementes, marcam a terra e o passar do sol, e do tempo. É antes de tudo, poesia. Poesia, que como as estrelas, não se intimida pelo latir incessante do cachorro ou pelo sol amputado por nuvens em Goiânia.

Ayla Andrade