Ecos do pós-moderno na poesia do Poeta de Meia-tigela

Artigo publicado na revista Linguagem em pauta. Para ler online e fazer download gratuito.

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haicai para léo prudêncio – ou me segura senão haicaio

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por: O Poeta de Meia-Tigela

1.

1. o haicai é uma centelha. fulguração pequeno satori iluminação. é a poesia pega no voo ou antes no salto. mas o haicai não é rápido: é breve. de uma brevidade com vagar devagar porque contemplativa 2. derivado do tanka mantém deste os versos iniciais e abdica dos dois finais; por isso o imediato da apreensão do haicai e sua expressividade cintilante: deve condensar uma impressão súbita um lampejo um luzir uma intuição que ao se vocalizar reverbere distenda-se espraie-se enlanguesça enlargueça-se — permaneça 3. vê-se que ao haicai acontece o que a todo poema: a inspiração — se a há —como despertar do poeta à visão repentina que se lhe apresenta e o traduzir aquele reluzir (com o adendo de que a tradução devida é a da concentração para maior fulgor não cabendo expansão que não a de sentidos) 4. o sintético do poema resulta no haicai como estaticidade: se a leitura é rápida — três versos de escansão 5-7-5 — a fruição da imagem sugerida é duradoura perficante remanescente. o haicai é um flagrante o 3 x 4 (3 x 3?) de um evento um pensentimento e ao mesmo tempo imobilidade do poema que capta que rapta e perpetua o movimentar-se do acontecer. breve e duradouro fixo e movedouro o haicai é a quintessência o sumo do que se chama poesia 5. vem bashô por uma trilha estreita e o mergulho da rã no lago o surpreende: essa surpresa é o haicai: instantâneo mas também ondulante como os círculos centrífugos na água

1. guilherme de almeida: O POETA. Caçador de estrelas./ Chorou: seu olhar voltou/ com tantas! Vem vê-las! (Encantamento, Acaso, Você, seguidos dos haicais completos)

2. sânzio de azevedo: NOITE. A lua, já baixa,/ se esconde por trás da fronde./ Uma rã coaxa. (Lanternas Cor de Aurora)

3. francisco carvalho: O espírito de Bashô/ te visita no limiar/ da água sem umbral. (Romance da Nuvem Pássaro, in: Memórias do Espantalho)

4. luciano bonfim: Livro: longa liberdade/ prosseguir paisagens, pensamentos/ pairar pelas palavras (Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos)

5. millôr fernandes: O hai-kai,/ descobri noutro dia,/ é o orvalho da poesia. (Hai-kais)

6. alice ruiz s: mosquito morto/ sobre poemas/ asas e penas (Desorientais)

7. bashô: a caminho do interior/ canções do plantio de arroz/ meu primeiro contato poético (Trilha Estreita ao Confim, tradução de Kimi Takenaka/ Alberto Marsicano)

8. léo prudêncio: estou sóbrio de/ palavras amores e livros/ fui regado a sol (aquarelas)

2.

1. nuvens que ao olhar

atento tornam-se pinturas:

aquarelas em fuga

(haicai 75)

2. foi guilherme de almeida quem implantou e difundiu no brasil de 1936 o haicai acrescido de título e rimas segundo a fórmula – – – – x/ – o – – – – o/ – – – – x. mas como esclarece léo prudêncio as aquarelas não pretendem seguir sempre o esquema métrico tampouco o rimático. e penso que não seja indevida tal escolha: se em sua origem há mais de quinhentos anos os versos japoneses prescindiam da consonância da simétrica eufonia por que não prescindir agora? as aquarelas inscrevem-se numa perspectiva contemporânea do haicaiar (a do jiuritsu) ao abdicarem de aterem-se à contagem do metro e disposição rímica; ao declinarem dos títulos e ao insistirem no uso mínimo de pontuação e utilização exclusiva das minúsculas [nota de contexto: conferir o poema 62, em que a palavra “Auroras” é corrigida para “auroras”, mais condizente com o alvorecer do sertão] assumem-se como lirismo contemporão e enquanto tal isentam-se da pré-fixação de formas excetuando-se a manutenção dos três versos [nota de contexto: às vezes mesmo esse preceito normativo mínimo aparece suplantado: leiam-se os poemas 37 (para nydia bonetti) e 95, desdobrados em quatro versos; por outro lado a tessitura triádica é tão distinguida que o montante de poemas não é outro senão o de noventa e nove a saber três ao quadrado três ao quadrado ou três vezes trinta e três] 3. a “pegada” pós-moderninha do aquarelas mostra-se também nalguns dos poemas que apelam para a temática expressivamente urbana: vejam-se os de número 39 (a bateria de samba) 53 (a batida de vodka e rock’n’roll, conducente a outra batida a de) 54 (carros que buzinam) 70 (stones na vitrola) 86 (o avião) [nota de contexto: o samba e o rock’n’roll no aquarelas: resquícios de baladas para violão de cinco cordas, livro anterior de léo prudêncio?] 4. considerada a urbanidade de certos haicais e a acentuada liberdade formal do livro inteiro parece que o distanciamos de sua ancestralidade: mas não é para tanto. é de se notar que a despeito do predominante versilibrismo estes poemas prudencianos mantêm — visualmente — o alongamento do segundo verso sugerindo-nos ao menos e sempre visualmente um não tão demarcado afastamento em relação aos haicaístas nipônicos dos séculos xvii-xviii: bashô-sora-buson-issa, por exemplo. quanto à urbanidade do aquarelas vale lembrar que os poemas acima citados constituem exceções neste volume sem dúvidas muito mais próximo de um panorama interiorano e sertanejo (conforme a pequena nota explicativa) que da cidade grande (cada vez menor porque maior). o próprio distanciamento do cenário oriental mais conclama que repele o espírito original do haicai: como fazer soarem sinceros versos brasileiros-nordestais que tratassem de “cerejeiras” “neves” “rouxinóis” “montes fujis”? somente a geografia cearense — sertão serra e litoral — pode tornar-se verdadeira imagem: “pés de manga” “brasas de fogueiras” “rolinhas” e “meruocas”: como bem diz o poema 26, “não é o monte everest/ é um pé de seriguela/ com formigas nele”. pois é o conhesentimento direto da paisagem sertaneja que permite a léo prudêncio alcançar em tantos de seus haicais o lirismo subitâneo-surprêsico do haicai oriental 5. o lirismo oriental como expressão da ligação do poeta com a natureza ao redor: faz-se profundamente presente no aquarelas o saber-se natureza e seguramente a maior parte dos poemas tem como tema a contemplação desta: “lagarta devoradora” (6) “passarinho admirador” (25) “mar invasor” (29) “galos cantadores” (41) “borboleta meditadora” (55) “sol renascedor” (68) “vento tropeçador” (79) “botão de flor desabrochador” (99) — tudo é admiração de um fora só perceptível porque ecoante e ecoante porque condizente com o dentro do bardo. por estar aberto pronto receptivo para o fora o fora se adentra e o que era fora e adentro torna-se um no poeta torna-o um com o derredor devolve-o ao entorno natural naturaliza-o ao passo que humaniza — poetiza — a natureza já poética. correndo o risco de um esquematismo por demais simplista (como soem ser os esquematismos) direi que boa parte de aquarelas (quase metade) compõe-se desse olhar contemplativo para o fora: “choveu e o pequeno/ pardal se refugiou, solitário,/ no galho de árvore” (13) ou “envergonhada com/ a multidão de estrelas/ a lua ficou vermelha” (65); uma quantia diz respeito à contemplação do si: o de abertura (1) supramencionado e “o meu silêncio é/ fuga e encontro de mim mesmo/ paz revoada em mim” (42) ou “noite adentro eu/ passo navegando o mar/ imenso que há em mim” (81). [nota de contexto: é certo que “revoada” e “mar” comportam elementos da natureza exterior mas o acento recai na observação de si na intro mais que na extro pecção] o encontro explícito do “in-” e do “ex-” dá-se em poemas como “a lua brilhando/ acima de mim me deixa/ mais perto de Deus” (19) ou no belíssimo blaisepascaliano “ao longe, acima/ de mim, a solidão das estrelas/ me toca” (88) 6. são a meu ler as abordagens predominantes embora ocorra intercalada e espaçadamente a presença da percepção a partir do fora do si-outro como aqui amorosamente “e ela é tão linda/ que a lua toda se alumia/ quando a vê passar” (12) ou aqui perplexa e de novo pascalmünchianamente “diante do universo/ o homem é apenas mero/ grito silencioso” (23). por fim a ligação entre o si e o outro em raros poemas a partir da identidade bem delineada pela transição à primeira pessoa do plural “para além do céu/ o olhar interrogativo:/ estaremos sós?” (74) ou “a vida passa por nós/ e é passageira em nós/ diluída no nada” (80) 7. mas talvez esteja na procura da vinculação à poesia mesma a realização máxima do aquarelas. o haicai fugidio em sua brevidade e permanente em sua reverberação cristalizado assim

a palavra escrita

na folha em branco leva

um pouco de mim (46)

3.

1. perdão léo os haicais tigelíricos a seguir ainda são de estro guilhermino

2.

vejo da marquise

a lua mostrar-se nua

cheia: estripetise

3.

velho o samurai

depõe armas e se põe

a empunhar haicais

4.

vem bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

5.

versos e silêncio:

singelas-te. o aquarelas

lês, de léo prudêncio

O POETA DE MEIA-TIGELA: DISCÍPULO DE BASHÔ

Oh! Sábio foi Bashô. (Imagem retirada do livro Girândola, p. 13)

Bashô o poeta maior do haicai deixou ensinamentos em sua poética haicariana. Os poemas  dele sempre apontam para algo além de descrições paisagísticas sobre cada estação do ano no Japão. O haicai envolve além da disciplina o envolvimento de si com o outro (sendo esse outro uma paisagem, ou instante, ou memória, ou devaneio). Como também há um olhar mais emblemático para dentro de si próprio, até porque essa poética está enraizada na solidão.

O haicai é, sobretudo, uma prática solitária que cultua a síntese.

Podemos enquadrar Bashô também como um filósofo, dado que seus poemas também transmitem ensinamentos. Aliás ele também nos deixou uma coleção de pensamentos intitulada Regras para peregrinar. No entanto, o poeta que será comentado neste texto se denomina O Poeta de Meia-Tigela. Ele tem causado um reboliço na literatura cearense devido, não apenas por seus poemas, mas também pela figura mística que o cerca. Isso me faz lembrar Bashô, que também era reconhecido não apenas por suas habilidades poéticas, mas também por suas excentricidades, como por exemplo: viver como andarilho e ter sempre a companhia de seus discípulos propagando seus ensinamentos zem-haicais. Aliás Bashô é o pseudônimo poético adotado por Matsuó, Bashô significa “bananeira” em japonês, a escolha foi simples: essa era a planta que ele achava mais bonita. O Poeta de Meia-Tigela, pseudônimo usado por Alves de Aquino, faz referência, obviamente não a uma planta, mas a questões sociais, temática bastante abordada por ele em seus poemas (o lado social dele é bastante destacado nos poemas do livro Memorial Bárbara de Alencar e na seção A roda dos enjeitados presente na coletânea Miravilha: liriai o campo dos olhos).

Um é mestre no haicai e ex-samurai, o outro é mestre em filosofia e até onde se sabe não pratica, ou praticou, artes marciais ou se serviu o exército. O Poeta de Meia-Tigela, assim como Bashô foi, é professor e por ventura também possui os seus discípulos, estes acadêmicos e filósofos. Um dado interessante: o que une os discípulos de ambos é a literatura.

Bashô dava aulas de literatura e ministrava cursos sobre o haicai. O Poeta de Meia-Tigela já ministrou minicursos acadêmicos sobre literatura. Em dois desses minicursos eu estive presente, um sobre Dostoiévski e o outro sobre Júlio Cortázar.

Bashô, e muitos poetas do oriente, são desenhistas por natureza. O Poeta de Meia-Tigela já se aventurou nas artes plásticas, esse trabalho é bastante notório nos desenhos que servem como guia, ou desguia, para alguns de poemas.

Recentemente O Poeta de Meia-Tigela nos mostrou que é adepto a escrita de haicais. Todos  os poemas aqui citados se encontram no Girândola, especificamente nove haicais à lá Guilherme de Almeida, que até o momento não tinha entrado nessa história. Esse poeta revogou as origens tradicionais do haicai oriental para implementar o seu próprio estilo. Os haicais de Guilherme de Almeida, e seus adeptos, possui rima, título e metrificação rigorosa. Alguns autores brasileiros seguem rigidamente essas regras para formularem seus haicais, um deles é, o já tão falado pelo menos nesse texto, O Poeta de Meia-Tigela, veja:

Um haicai

Meu sangue se esvai

(e vão as gotas no chão

compondo um haicai)

            Esse sangue que escorre do poeta formando o haicai, nos faz lembrar os combates sangrentos que os samurais travavam. Aliás, muitos samurais eram cultivadores do haicais (um deles como já se sabe foi Matsuó Bashô). Há nesse poema também a descoberta da dor, tema tão debatido por monges budistas. Aliás, todo poeta tem um pouco de monge.

A vida campestre, bastante tematizada no oriente, é tema em outro poema de estro tigelírico:

Bem-São

Tudo é claridade.

Mas chove e a chuva comove:

Deus benze a cidade.

            No poema acima o poeta arrematou dois temas em um só haicai: Religiosidade e estação do ano. Alias, a religião nem é tão debatida em poemas orientais, até porque o budismo não é, pelo menos em sua essência, uma religião. Mas eu gostaria de observar um outro fator: notamos no haicai acima algo que perpetua a região nordestina: a religiosidade. Logo, temos em mãos um haicai que é clássico mas ao mesmo tempo contemporâneo. Sonoramente, ao ler o título do haicai ouvimos: Benção, o que evidencia mais ainda o caráter religioso-nordesdino do poema. As estações do ano nem sempre aparecem às claras. Ela está lá, mas de forma subliminar. Como no haicai comentado Bem-São em que o inverno aparece implicitamente através de sua qualidade mais expressiva: a chuva.

O haicai busca a simplicidade, a síntese, a paz e o encontro de si. Essas características se enquadram bem no que Bashô tanto pregava: a filosofia zen. Sentimos o espírito zen ao lermos:

O universo é Bom.

Seu tom é contínuo som

que ecoa em mim: Oommmm

            Nesse haicai encontramos a paz, a harmonia, a sintonia com o universo, a musicalidade, a filosofia… características essenciais para fabricar bons haicais e compreender o além-de-si. Isso nos mostra que o Poeta de Meia-Tigela às vezes se deixa ser o professor de filosofia Alves de Aquino, e sua filosofia se apresenta nos poemas descritos pelo personagem-autor do livro Girândola.

O ato de contemplar a natureza é importante para os poetas que seguem os rastros de Bashô. Se bem que O Poeta de Meia-Tigela segue o rastro métrico deixado por Guilherme de Almeida, mas diferentemente do poeta paulista, ele formula seus poemas à moda de Bashô e o saúda interligando o poema de cima com este:

Oh! Sábio foi Bashô

Vem Bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

E eu vos exorto: Sábios são Bashô e o Poeta de Meia-Tigela.

Melhor dizendo: Bashô Aquino.

***

OBS: 1. O livro Memorial Bárbara de Alencar foi editado inicialmente em 2008 e teve reedição com acréscimos em 2011.

  1. O livro Miravilha: liriai o campo dos olhos, foi editado e publicado pela Confraria do Vento em 2015
  2. O livro Girândola foi editado e publicado pela Substânsia em 2015.