Poema de Cláudio Oliveira

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Feriado das águas

Hoje me esqueci dos outros cômodos
e vim morar no quarto
talvez pelo teu cheiro ainda nas fronhas
talvez pela penumbra em venezianas
ou pelo anseio da chuva da tarde.

Não sei.

Sei das saudades incômodas
segundafeirizadas
por um maldito silêncio da tua voz
sei das minhas preces sem vergonha
josefinadas
por um bendito feriado cearense

o feriado das águas
o dia das nuvens grávidas
o dia em que as saudades choveram em mim.

O POETA DE MEIA-TIGELA: DISCÍPULO DE BASHÔ

Oh! Sábio foi Bashô. (Imagem retirada do livro Girândola, p. 13)

Bashô o poeta maior do haicai deixou ensinamentos em sua poética haicariana. Os poemas  dele sempre apontam para algo além de descrições paisagísticas sobre cada estação do ano no Japão. O haicai envolve além da disciplina o envolvimento de si com o outro (sendo esse outro uma paisagem, ou instante, ou memória, ou devaneio). Como também há um olhar mais emblemático para dentro de si próprio, até porque essa poética está enraizada na solidão.

O haicai é, sobretudo, uma prática solitária que cultua a síntese.

Podemos enquadrar Bashô também como um filósofo, dado que seus poemas também transmitem ensinamentos. Aliás ele também nos deixou uma coleção de pensamentos intitulada Regras para peregrinar. No entanto, o poeta que será comentado neste texto se denomina O Poeta de Meia-Tigela. Ele tem causado um reboliço na literatura cearense devido, não apenas por seus poemas, mas também pela figura mística que o cerca. Isso me faz lembrar Bashô, que também era reconhecido não apenas por suas habilidades poéticas, mas também por suas excentricidades, como por exemplo: viver como andarilho e ter sempre a companhia de seus discípulos propagando seus ensinamentos zem-haicais. Aliás Bashô é o pseudônimo poético adotado por Matsuó, Bashô significa “bananeira” em japonês, a escolha foi simples: essa era a planta que ele achava mais bonita. O Poeta de Meia-Tigela, pseudônimo usado por Alves de Aquino, faz referência, obviamente não a uma planta, mas a questões sociais, temática bastante abordada por ele em seus poemas (o lado social dele é bastante destacado nos poemas do livro Memorial Bárbara de Alencar e na seção A roda dos enjeitados presente na coletânea Miravilha: liriai o campo dos olhos).

Um é mestre no haicai e ex-samurai, o outro é mestre em filosofia e até onde se sabe não pratica, ou praticou, artes marciais ou se serviu o exército. O Poeta de Meia-Tigela, assim como Bashô foi, é professor e por ventura também possui os seus discípulos, estes acadêmicos e filósofos. Um dado interessante: o que une os discípulos de ambos é a literatura.

Bashô dava aulas de literatura e ministrava cursos sobre o haicai. O Poeta de Meia-Tigela já ministrou minicursos acadêmicos sobre literatura. Em dois desses minicursos eu estive presente, um sobre Dostoiévski e o outro sobre Júlio Cortázar.

Bashô, e muitos poetas do oriente, são desenhistas por natureza. O Poeta de Meia-Tigela já se aventurou nas artes plásticas, esse trabalho é bastante notório nos desenhos que servem como guia, ou desguia, para alguns de poemas.

Recentemente O Poeta de Meia-Tigela nos mostrou que é adepto a escrita de haicais. Todos  os poemas aqui citados se encontram no Girândola, especificamente nove haicais à lá Guilherme de Almeida, que até o momento não tinha entrado nessa história. Esse poeta revogou as origens tradicionais do haicai oriental para implementar o seu próprio estilo. Os haicais de Guilherme de Almeida, e seus adeptos, possui rima, título e metrificação rigorosa. Alguns autores brasileiros seguem rigidamente essas regras para formularem seus haicais, um deles é, o já tão falado pelo menos nesse texto, O Poeta de Meia-Tigela, veja:

Um haicai

Meu sangue se esvai

(e vão as gotas no chão

compondo um haicai)

            Esse sangue que escorre do poeta formando o haicai, nos faz lembrar os combates sangrentos que os samurais travavam. Aliás, muitos samurais eram cultivadores do haicais (um deles como já se sabe foi Matsuó Bashô). Há nesse poema também a descoberta da dor, tema tão debatido por monges budistas. Aliás, todo poeta tem um pouco de monge.

A vida campestre, bastante tematizada no oriente, é tema em outro poema de estro tigelírico:

Bem-São

Tudo é claridade.

Mas chove e a chuva comove:

Deus benze a cidade.

            No poema acima o poeta arrematou dois temas em um só haicai: Religiosidade e estação do ano. Alias, a religião nem é tão debatida em poemas orientais, até porque o budismo não é, pelo menos em sua essência, uma religião. Mas eu gostaria de observar um outro fator: notamos no haicai acima algo que perpetua a região nordestina: a religiosidade. Logo, temos em mãos um haicai que é clássico mas ao mesmo tempo contemporâneo. Sonoramente, ao ler o título do haicai ouvimos: Benção, o que evidencia mais ainda o caráter religioso-nordesdino do poema. As estações do ano nem sempre aparecem às claras. Ela está lá, mas de forma subliminar. Como no haicai comentado Bem-São em que o inverno aparece implicitamente através de sua qualidade mais expressiva: a chuva.

O haicai busca a simplicidade, a síntese, a paz e o encontro de si. Essas características se enquadram bem no que Bashô tanto pregava: a filosofia zen. Sentimos o espírito zen ao lermos:

O universo é Bom.

Seu tom é contínuo som

que ecoa em mim: Oommmm

            Nesse haicai encontramos a paz, a harmonia, a sintonia com o universo, a musicalidade, a filosofia… características essenciais para fabricar bons haicais e compreender o além-de-si. Isso nos mostra que o Poeta de Meia-Tigela às vezes se deixa ser o professor de filosofia Alves de Aquino, e sua filosofia se apresenta nos poemas descritos pelo personagem-autor do livro Girândola.

O ato de contemplar a natureza é importante para os poetas que seguem os rastros de Bashô. Se bem que O Poeta de Meia-Tigela segue o rastro métrico deixado por Guilherme de Almeida, mas diferentemente do poeta paulista, ele formula seus poemas à moda de Bashô e o saúda interligando o poema de cima com este:

Oh! Sábio foi Bashô

Vem Bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

E eu vos exorto: Sábios são Bashô e o Poeta de Meia-Tigela.

Melhor dizendo: Bashô Aquino.

***

OBS: 1. O livro Memorial Bárbara de Alencar foi editado inicialmente em 2008 e teve reedição com acréscimos em 2011.

  1. O livro Miravilha: liriai o campo dos olhos, foi editado e publicado pela Confraria do Vento em 2015
  2. O livro Girândola foi editado e publicado pela Substânsia em 2015.

Moreira Campos por trás dos livros

moreira campos
No dia 06 de janeiro de 1914, na cidade de Senador Pompeu, nascia José Maria Moreira Campos. Filho do casal Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. O futuro contista formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Ceará em 1946. Atuou no magistério, com louvor diga-se, na Universidade Federal do Ceará. O nome desse escritor é fortemente ligado à cultura literária do Ceará. Participou de importantes grupos literários como o grupo Clã, grupo precursor do modernismo literário do Ceará além de ser imortal da Academia Cearense de Letras (ACL). Seus livros são fonte de pesquisas acadêmicas não somente em nosso estado, mas fora dele também. Seus livros já foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, alemão e até mesmo para os idiomas japonês e hebraico.
O autor era apaixonado pela capital cearense. Uma dessas declarações de amor aparece no único livro de poemas do autor, Momentos: “Amo-te, fortaleza / nasci contigo / aprendi-te.” Das 348 crônicas escritas para o jornal O Povo, entre citações fortalezenses, 5 crônicas são dedicadas exclusivamente à capital cearense. A poucos meses de falecer, em crônica publicada em um jornal curitibano, ele confessa: “o chão que me viu crescer, que jamais abandonei e onde um dia fecharei os olhos”. Essa devoção pela cidade que o acolheu a partir dos anos 1930 repercute em toda a sua obra, principalmente através da linguagem.
O total de contos produzidos por Moreira Campos diverge, mas muitos autores comentam que ele escreveu ao todo 137 contos. São de autoria do autor os livros Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987).
Os contos de Campos inicialmente eram longos, com o passar do tempo o escritor foi percebendo a necessidade de se reinventar e de se adequar às proporções pós-modernas e um grande salto para isso seria economizar seu vocabulário verbal. O espaço gráfico foi ficando cada vez mais condensado. Seus últimos livros publicados demonstram essa mudança. Mas desde seu primeiro livro, Vidas Marginais, o autor conquistou o respeito da crítica. Em um de seus prefácios, ele comenta que seus contos são “uma fatia de vida, um impressão, uma mancha”.
Através de seus personagens, o autor caricatura os costumes, a moral e a sociedade, utilizando sempre de uma linguagem carregada de humor e também de ironia. Temas como a morte, o erotismo, a loucura e a maldade humana são recorrentes nos textos do autor cearense. A sua linguagem abre mão do sentimentalismo verbal, o que provoca no leitor uma transparência maior do real. Um elemento curioso de suas narrativas diz respeito aos seus personagens, que sempre se apresentam em ação. Moreira Campos não desperdiça tempo apresentando os personagens de maneira longa. O fator psicológico é fundamental em sua escrita, assim como a repetição de termos e expressões populares.
Moreira Campos nos deixou uma vasta herança cultural e humanística. Eu conversei com a filha do autor, Marisa Alcides Campos. Quando criança, sua irmã Natércia não conseguia pronunciar seu nome; em vez de falar Marisa, a pequena pronunciava Badida. Familiares e amigos adotaram o apelido, e Marisa o adotou para assinar os seus trabalhos como artista plástica. Por e-mail tive a honra de conversar com ela, que assim como seu pai, é de uma extensa gentileza:
Léo P: Estamos curiosos para saber como era Moreira Campos no ambiente familiar.
 
Badida: Doce e espalhando Amor, sempre.
Léo P. Como era a rotina dele?
Badida: Acordava cedo, tomava seu café, acompanhado de minha mãe e de nós, filhos. Acendia o sacratíssimo cigarro e conversava amenidades. Depois ia para a Faculdade de Letras ou Reitoria e voltava à noitinha. Após o jantar, geralmente, nos reuníamos na sala, ou jardim e conversávamos. Antes de dormir ia para o seu gabinete (“Buraco da Jia”) e lia, lia.
Léo P: Ele lia e indicava livros pra você?
Badida: Lia muito e, evidentemente, nos indicava livros preciosos. Lembro que li “Guerra e Paz” com 14 anos de idade (era um dos livros prediletos dele) e que tive de repetir a leitura anos depois, para compreender melhor o Mestre Tolstoi.
Léo P: Já mostrou algum texto (conto/poesia) de sua autoria para que ele comentasse?
Badida: Sim e ele era muito generoso com suas críticas.
Léo P: Era frequente a visita de outros escritores na casa de vocês?
Badida: Muito frequente. Tive o privilégio de, na minha mocidade, conhecer os amigos Aurélio Buarque de Holanda, Rachel de Queiroz, Francisco Carvalho, Braga Montenegro, Eduardo Campos e vários outros. Finais de semana deliciosos no jardim de nossa casa, em conversas memoráveis.
Léo P: Você sabe se existe algum conto dele que foi inspirado em algum episódio pessoal?
Badida: Vários. Contos e poesias.
Léo P: Você já presenciou seu pai no momento da criação literária? Conte-nos.
Badida: Ele se trancava no “Buraco da Jia”, escrevia, escrevia, e depois vinha até nós e lia o que acabava de criar. Aplaudíamos e ele sorria.
Léo P: Tem por costume ler os livros que seu pai publicou? Qual seu preferido?
Badida: Leio sempre e gosto de todos, mas Momentos (seu único livro de poesias) me encanta muitíssimo.
Léo P: Seu pai ficava ansioso para receber os comentários de seus livros?
Badida: Se ficava, não demonstrava muito. Mas sei que restava feliz quando a crítica chegava. Certa vez, estávamos almoçando, quando chegou um telegrama de Graciliano Ramos que dizia: “Moreira, hoje amanheci com saudade de Dona Adalgisa. Abraço grande. Graça”. Dona Adalgisa é uma personagem de um dos contos de meu pai e que, na época, acabava de ser publicado.
Léo P: Existem escritos inéditos dele?
Badida: Penso que não. Possivelmente, se houver minhas sobrinhas (Caterina Campos de Saboya e Carolina Campos) saberão melhor que eu, uma vez que ambas cuidam de todo o seu acervo cultural.
Léo P: Como escritor, Moreira Campos deixou um vasto legado literário, qual o legado que ele lhe deixou como pai?
Badida: Legado precioso: Humanístico, Amoroso e Cultural.
 (Esse texto eu publiquei inicialmente na revista Substânsia Nº3)

Os golpes poéticos de Talles Azigon

O livro Três golpes d’água (Substânsia 2014), de Talles Azigon, pretendem golpear três coisas: 1) O homem externo a sua poética; 2) o leitor que convive dia a dia com o poeta e 3) os versos de Azigon pretendem golpear a si próprio. Sendo assim, conversemos sobre o livro do poeta seguindo as divisões demarcadas no livro.

1) O golpe no mundo dos homens

Na primeira parte do livro, como já disse, o poeta direciona os seus golpes literários àqueles que não conviveram diretamente com ele. São os homens desconhecidos, e solitários, que caminham por entre a multidão: o fortalezense. O poema que abre essa parte, poetiza a rotina de Fortaleza:

como um passe de mágica

a cidade faz dormir

todos os semáforos.

o caos instalado

obriga-nos a ler o óbvio:

os homens não se entendem,

por isso os sinais.

o mundo relembra

que é mundo

(de pedra, ferro, cimento e gente)

livroNa verdade o poema acima pode se aplicar a qualquer cidade. O homem “civilizado” necessita de leis para se governar e se organizar. Sem isso, o homem vive em um caos total. Alias, até com as leis vivemos em um caos. Os últimos versos nos fazem refletir sobre a composição concreta do mundo. O poeta segue as indicações de Manuel Bandeira, que sabiamente, fazia poemas a partir de recortes de jornal, ou, de recortes urbanos.

Na epígrafe do livro de Talles já notamos um dos sinais de influência da poesia de Manuel Bandeira:

Esse anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.”

-Manuel Bandeira

Tá certo que colocar uma epígrafe de um autor não indica que todo o livro tenha que, necessariamente, sofrer alguma influência do mesmo. Mas pelo pouco que conheço o poeta dos Três golpes d’água, sei que poderá haver sim um certo diálogo com a poesia de Bandeira. Pois Talles é leitor, full time, de Bandeira. A captação poética, da obra do poeta das Cinzas das horas, se apresenta na percepção do urbano, da conscientização da efemeridade da vida e das referências à memória pessoal do autor fortalezense.

A epígrafe da obra de Talles, sinaliza também a necessidade que o poeta tem de eternizar o que acontece ao seu redor em forma de poesia. No poema Arquitetura do cansaço, Talles a maneira de Alberto Caeiro, faz um poema filosófico sobre a ânsia de sair da cidade. O poeta nessa primeira parte da obra, se sente um cidadão à parte da cidade. E para Platão não há lugar para o poeta em sua república, Talles não encontra seu lugar e por isso despeja o primeiro golpe aos residentes da república/cidade.

2) Golpe no meu mundo

Na segunda parte do livro, Talles Azigon, dirrciona os seus golpes poéticos para si mesmo. Nessa parte encontraremos um poeta exposto que se auto-golpeia com a sua memória. Em um dos poemas, ele nos confessa que há dentro dele um sertão infinito. Essa infinidade interior dará vazão ao lado poético. Nessa parte do livro, desvendamos o sertão interior do poeta.

Sabemos que a introspecção só é válida quando não é transcrita de maneira pessoal, fazendo do poema algo particular, ou, mero recorte pessoal do poeta. Talles se utiliza da introspecção de maneira sutil, pois como todo bom poeta, ele sabe que uma dosagem a mais de introspecção, faria de seus poemas meros textos pessoais.

Concluo comentando que esta parte do livro é importante para o todo da obra, pois a poesia deve primeiro golpear o autor para depois acertar os futuros leitores.

3) Golpe no teu mundo

Comecemos nossa conversa sobre a última parte do livro de Talles, analisando brevemente o poema que abre o terceiro golpe:

fala

teu falo

é meu

falo

o

meu

também

é teu.

Inicialmente, o poeta declara que a sua fala é também a fala do leitor, assim como também a fala do leitor é a fala do poeta. Os golpes dessa sessão, na verdade são feitos por um eu-lírico que se universaliza a partir da sensibilidade do leitor. O lirismo, tão presente na obra de Bandeira, é presença marcante na obra de Talles. O poema abaixo golpeia qualquer leitor desprovido de armaduras:

Fui embora pra dentro de mim

fiz um furo aqui em cima

e deixei escorrer toda crendice

que eu ainda tinha de tu.

nada não,

o amor é assim mesmo

quando não amarga na entrada

amarga na saída.

Sem como se defender, o leitor é golpeado poeticamente nas páginas seguintes desta sessão e de todas as sessões do livro. Se por acaso você se machucar com os Três golpes d’água de Talles Azigon, leia novamente a obra, pois as sucessivas releituras funcionam como antídotos pós-términio de leitura.

As baladas de um jovem poeta

Por: Bruno Paulino

Acabei de ler o originalíssimo livro-disco de estreia do poeta Léo Prudêncio “Baladas para violão de cinco cordas”. O titulo e a obra como um todo me fizeram lembrar-se de um poema do simbolista Cruz e Sousa “violões que choram”:

“Ah! plangentes violões dormentes, mornos,/ soluços ao luar, choros ao vento…/Tristes perfis, os mais vagos contornos,/ bocas murmurejantes de lamento./ Noites de além, remotas, que eu encontrorecordo,/noites de solidão, noites remotas/ que nos azuis das Fantasias bordo,/ vou constelando de visões ignotas.”

Dialogando através do tempo, num primeiro olhar, pode se constatar que tanto o poema de Cruz e Sousa como o livro de Léo Prudêncio são carregados de dolências plangentes. Sendo movido pela crença que “ser poeta é absorver as dores do mundo” Léo o “poeta que está só” constrói a narrativa da vida do personagem Chico, refugiando-o num universo imaginário, refletindo uma filosofia do nada, da desesperança e do ceticismo. Elegendo nesse percurso como trilha sonora e colocando na vitrola grandes nomes da música pop, assim como também ao caminhar, o faz sempre dialogando com renomados pensadores da historia universal.

Desse modo as baladas-poemas que compõe o volume são dormentes, tristonhas, chorosas, e por vezes ritmadas com a melodia cortante do humor e da ironia, fazendo da meditação metafísica de Chico uma rejeição clara a lógica da sociedade burguesa. Por fim só nos resta parabenizar o poeta por sua dedicação à literatura, assim como também pelo excelente livro que publica, que de igual modo como a boa música, nos toca, acarinha e nos aguça ao ato de refletir, e claro, sentir o mundo com outros riffes.

comentário de Badida Campos sobre o livro ‘Baladas para violão de cinco cordas’

Marisa Moreira da Costa Campos - Badida-Picture0003

Amigo Léo Prudêncio:  recebi ontem à tarde o seu livro “Baladas para violão de cinco cordas”. Li de um só fôlego. Gostei muito. O livro está repleto de achados poéticos. Moderno e dulcíssimo. Em “Espólio” vc. finda com uma grande verdade: “Tudo o que sobrará de mim, serão essas pegadas deixadas na praia q. logo, logo serão apagadas, assim como nós.” 

“Epílogo”: “Envelhecer é deixar de sonhar.” Perfeito !

“Eu e minha pequena”: “Ela é glamorosa (como os solos de George Harrison)”. Põe glamour nisto! E por falar em G. Harrison sou encantada com a música “My sweet Lord”.

E esta delícia de frase: “Queria ser um pássaro e ser amigo do céu.”

Em “O Mar”- “Uma lágrima passeia sobre meu rosto e encontra-se com o mar…” Lembrei desta frase do poeta português: “Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”. 

Gostei muito da expressão “pagão natal”. Resumiu toda a dissertação sobre o Natal.

Parabéns, Léo. De verdade. E olhe que eu sou exigente quando se trata de Literatura.

Que venham mais livros.

Obrigada pelo presente, filho.

Abraço grande.

Badida 

(Badida Campos mora em Recife -PE, artísta plástica de renome nacional, quiça, internacional. Badida é filha do ilustre escritor Moreira Campos, que tanto li e ainda leio)