Aquarelas – por Bruno Paulino

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Poeta Léo Prudêncio recebi ontem no começo da manhã o seu bonito livro aquarelas: haicais. E foi como se passarinhos pousassem em minhas mãos. Enchi-me de euforia. Fiquei com a impressão que para escrever haicais é preciso sorver a inspiração e ter ainda a capacidade meditativa de um monge tibetano. Você tem esse olhar iluminado que enxerga poesia na aridez do cotidiano. É um artista espontâneo, comovente, um pintor lírico, retratista da natureza. Por vezes, lendo o livro lembrei-me do poeta pantaneiro Manoel de Barros e suas desimportâncias tão importantes para os sensíveis. Um afetuoso abraço, Poeta!!!  (Bruno Paulino)

Aquarelas: haicais, de Léo Prudêncio

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[POR: Daniel Coutinho]

Hoje, vou falar de um livro muito fofo que, de certa forma, até me surpreendeu por sua extrema delicadeza e sensibilidade. Trata-se de um lançamento imperdível deste ano, Aquarelas: haicais, de Léo Prudêncio.

Sim… É aquele livro amarelo com passarinhos na capa do Mais Livros! de abril rsrsrsrs. Estava muito ansioso para lê-lo, mas como estava ocupado com os casos sobrenaturais de Os Mistérios de Udolpho, tive que esperar um tempinho; mesmo assim, Aquarelas furou a fila de leituras que preparei para o ano, mas merecidamente. Confesso que fico empolgado com lançamentos de amigos, porque sim, Léo Prudêncio é meu amigo e ex-colega do Curso de Letras. Deixem pois que fale um pouquinho do autor, até para apresentá-lo a leitores que ainda não o conheçam.

Léo Prudêncio é natural de São Paulo, mas foi no meu Ceará que ele passou a maior parte da sua vida. Um apaixonado pela leitura, não esconde sua preferência pela “poesia” e, desde cedo, foi um apreciador dos grandes poetas brasileiros. A “música” é outra paixão que sempre lhe motivou; nem sei bem se veio antes ou depois da “poesia”; mas a verdade é que música e poesia estão estreitamente ligadas e em constante comunicação. Na poesia de Léo Prudêncio, contudo, a música sobressai enquanto influência, o que deixa bem claro sua obra de estreia: Baladas para Violão de Cinco Cordas (2014).

Esse livro de estreia é obra interessantíssima, a começar pelo projeto gráfico que brinca ao buscar assemelhar-se a um disco de vinil. Os poemas se dividem em duas partes: Lado A e Lado B; e uma porção de outros recursos criativos é empregada com muita felicidade no Baladas, que é mesmo obra genial!

Após tão entusiasmada estreia, o estro de Léo foi buscar na cultura japonesa matéria para sua nova obra, já tão ansiada pelos seus leitores. Assim, o “haicai” foi o gênero escolhido para vazar sua inspiração. Se você não sabe, assim como eu também não sabia, que diabo é “haicai”, deixem que explique resumidamente. “Haicai” é uma forma poética de origem japonesa, que se popularizou e se tornou conhecida em todo o mundo a partir da obra de Bashô, que pode ser considerado o pai do “haicai”. A estrutura clássica do haicai é: estrofe única de três versos (terceto), sendo o primeiro e o último pentassílabos, e o do meio heptassílabo. No Brasil, Guilherme de Almeida difundiu o “haicai” a partir de sua obra Poesia Vária (1947), sendo que, antes, já havia divulgado um pouco da cultura haicaiana através do jornal.

Lendo Aquarelas, pude entender o porquê desse título. De fato, cada haicai é como se fosse a transposição de um quadro em palavras, porque o livro é isso: reunião de 99 detalhes ou impressões sobre o mundo: o homem, os animais, a natureza, a própria vida. Para mim, foi uma novidade, e das boas! É diferente, claro, especialmente quando é seu primeiro contato com o gênero. A princípio, parece meio estranho essa sequência de composições breves, mas depois que passei a encará-las como “aquarelas” que falam pelo silêncio, como menciona a prefaciadora, aproveitei melhor a experiência.

Os temas, conforme já referi, são diversos. As composições não obedecem estrutura métrica ou rítmica. A surpresa maior que tive com a leitura foi o estilo: a leveza, a singeleza e a delicadeza sobretudo. Os haicais reproduzem imagens tão simples e despretensiosas (em sua maioria), que em algum momento, esqueci que estava lendo Léo Prudêncio com toda sua poesia moderna. Talvez por inspirar-se numa forma clássica, a impressão que tive deste novo livro foi diferente à do anterior: percebi uma universalidade maior nessa representação da natureza, entremeada algumas vezes por outras influências, como a “música”, que não poderia faltar. Fiquei feliz por reconhecer nas páginas de Aquarelas a natureza cearense: a serra da Meruoca, nossos cajus e seriguelas.

É meio difícil escrever sobre poesia, ainda mais quando na brevidade e no silêncio, diz-se tanta coisa! É uma experiência mais para se sentir do que para comentar. Para concluir, só queria revelar que se Baladas para Violão de Cinco Cordas apreciei pelo som; Aquarelas apreciei pela imagem.

Audição, visão… Ô, Léo Prudêncio, seu próximo livro será olfato? rsrsrs

Avaliação: ★★★★

As aquarelas em três versos de Léo Prudêncio

aquarelas

Por: Vivian de Moraes

Parece fácil. É muito simples: uma ideia divida em um terceto. Os haicais viraram febre nas últimas décadas, especialmente após a publicação de “Toda poesia”, de Paulo Leminski, um de seus principais expoentes. Mas o que sobra de realmente relevante de tanta produção poética baseada na arte do mestre Bashô?

Léo Prudêncio, autor paulistano que vive em Goiânia, aceitou o desafio de não ser mais um. Compôs 99 haicais belíssimos para o seu segundo livro: “aquarelas: haicais” (Penalux, 2016). Embora fuja da métrica rígida daqueles que seguem o haiku-dô, mantém o tema da contemplação da natureza. Mas, como Leminski, também passeia pela poesia urbana, do cotidiano, em um ou outro poema. O fato é que todos os 99 haicais do livro são relevantes, demonstram inspiração e deixam entrever um cuidadoso trabalho com as palavras.

Com ilustração de Chico Martins, prefácio de Jo A-mi e posfácio d’O Poeta de Meia-Tigela, além do projeto gráfico de Ricardo Paixão, o livro encanta pelo olhar e pelo toque. Passarinhos pousados em uma amoreira convidam à fruição dos pequenos poemas. O papel é gostoso e convida a ser cheirado. E, quando se destrinça essa fruta que é o livro, encontram-se poemas como os que seguem:

4.

um pássaro pousou

no galho do pé de manga

somos dois solitários”

32.

o sol dura menos

de um dia. quando ele se vai

vou-me junto com ele”

99.

sorrio de volta pro

botãozinho de flor que

vai desabrochando”

Em suma, a obra é um primor. Pena que o livro seja tão curtinho para a nossa sede de poesia!

Prefácio do Aquarelas

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Por: Jo A-mi

recebi o convite do poeta. de haicais era o assunto. um colorido de pensamentos sobrevoou minha imaginação. li os haicais enquanto si-pintaram os versos: todos aquarelas, realmente. asas-verbo tracejadas na liberdade do pensar.

nas aquarelas, de léo prudêncio, as imagens dizem silenciosas: porque haicais comunicam pelo silêncio. a vida poética mistura-se à vida ordinária. qualquer ponte, apenas existia. não há mais fronteiras. sentimos a solidão inenarrável do eu-lírico. a solidão cruzada em versos de muitas jornadas. a realidade é poética, simplesmente.

estará sozinho o poeta? não sei. ouço, entretanto, os sentimentos de seu personagem-criador e de suas criaturas-personagens; todas elas: borboleta, noite, gato, lua, árvore, dia, mar, fogo, nuvens, céu, flores, chuva, serra da meruoca, fogo e outras mais. sussurros de manoel de barros. a grandeza está no metro das coisas? aqui, monte everest se vê num pé de seriguela, vice-versa. porque os haicais cumprem um olhar anímico sobre a vida: ser humano e natureza não se separam. vai-se assim construindo cada verso desse acervo poético. As jornadas caminham entre lembranças e ausências: toques suaves e cordiais.

nas aquarelas, por fim, há em cada página dois poemas que dançam de fazer poesia. ínterim em que o poeta empreende o desejo contínuo e peremptório de sonhar. e seu sonho torna-se palavra. realidade dita quase ao ouvido.

haicai para léo prudêncio – ou me segura senão haicaio

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por: O Poeta de Meia-Tigela

1.

1. o haicai é uma centelha. fulguração pequeno satori iluminação. é a poesia pega no voo ou antes no salto. mas o haicai não é rápido: é breve. de uma brevidade com vagar devagar porque contemplativa 2. derivado do tanka mantém deste os versos iniciais e abdica dos dois finais; por isso o imediato da apreensão do haicai e sua expressividade cintilante: deve condensar uma impressão súbita um lampejo um luzir uma intuição que ao se vocalizar reverbere distenda-se espraie-se enlanguesça enlargueça-se — permaneça 3. vê-se que ao haicai acontece o que a todo poema: a inspiração — se a há —como despertar do poeta à visão repentina que se lhe apresenta e o traduzir aquele reluzir (com o adendo de que a tradução devida é a da concentração para maior fulgor não cabendo expansão que não a de sentidos) 4. o sintético do poema resulta no haicai como estaticidade: se a leitura é rápida — três versos de escansão 5-7-5 — a fruição da imagem sugerida é duradoura perficante remanescente. o haicai é um flagrante o 3 x 4 (3 x 3?) de um evento um pensentimento e ao mesmo tempo imobilidade do poema que capta que rapta e perpetua o movimentar-se do acontecer. breve e duradouro fixo e movedouro o haicai é a quintessência o sumo do que se chama poesia 5. vem bashô por uma trilha estreita e o mergulho da rã no lago o surpreende: essa surpresa é o haicai: instantâneo mas também ondulante como os círculos centrífugos na água

1. guilherme de almeida: O POETA. Caçador de estrelas./ Chorou: seu olhar voltou/ com tantas! Vem vê-las! (Encantamento, Acaso, Você, seguidos dos haicais completos)

2. sânzio de azevedo: NOITE. A lua, já baixa,/ se esconde por trás da fronde./ Uma rã coaxa. (Lanternas Cor de Aurora)

3. francisco carvalho: O espírito de Bashô/ te visita no limiar/ da água sem umbral. (Romance da Nuvem Pássaro, in: Memórias do Espantalho)

4. luciano bonfim: Livro: longa liberdade/ prosseguir paisagens, pensamentos/ pairar pelas palavras (Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos)

5. millôr fernandes: O hai-kai,/ descobri noutro dia,/ é o orvalho da poesia. (Hai-kais)

6. alice ruiz s: mosquito morto/ sobre poemas/ asas e penas (Desorientais)

7. bashô: a caminho do interior/ canções do plantio de arroz/ meu primeiro contato poético (Trilha Estreita ao Confim, tradução de Kimi Takenaka/ Alberto Marsicano)

8. léo prudêncio: estou sóbrio de/ palavras amores e livros/ fui regado a sol (aquarelas)

2.

1. nuvens que ao olhar

atento tornam-se pinturas:

aquarelas em fuga

(haicai 75)

2. foi guilherme de almeida quem implantou e difundiu no brasil de 1936 o haicai acrescido de título e rimas segundo a fórmula – – – – x/ – o – – – – o/ – – – – x. mas como esclarece léo prudêncio as aquarelas não pretendem seguir sempre o esquema métrico tampouco o rimático. e penso que não seja indevida tal escolha: se em sua origem há mais de quinhentos anos os versos japoneses prescindiam da consonância da simétrica eufonia por que não prescindir agora? as aquarelas inscrevem-se numa perspectiva contemporânea do haicaiar (a do jiuritsu) ao abdicarem de aterem-se à contagem do metro e disposição rímica; ao declinarem dos títulos e ao insistirem no uso mínimo de pontuação e utilização exclusiva das minúsculas [nota de contexto: conferir o poema 62, em que a palavra “Auroras” é corrigida para “auroras”, mais condizente com o alvorecer do sertão] assumem-se como lirismo contemporão e enquanto tal isentam-se da pré-fixação de formas excetuando-se a manutenção dos três versos [nota de contexto: às vezes mesmo esse preceito normativo mínimo aparece suplantado: leiam-se os poemas 37 (para nydia bonetti) e 95, desdobrados em quatro versos; por outro lado a tessitura triádica é tão distinguida que o montante de poemas não é outro senão o de noventa e nove a saber três ao quadrado três ao quadrado ou três vezes trinta e três] 3. a “pegada” pós-moderninha do aquarelas mostra-se também nalguns dos poemas que apelam para a temática expressivamente urbana: vejam-se os de número 39 (a bateria de samba) 53 (a batida de vodka e rock’n’roll, conducente a outra batida a de) 54 (carros que buzinam) 70 (stones na vitrola) 86 (o avião) [nota de contexto: o samba e o rock’n’roll no aquarelas: resquícios de baladas para violão de cinco cordas, livro anterior de léo prudêncio?] 4. considerada a urbanidade de certos haicais e a acentuada liberdade formal do livro inteiro parece que o distanciamos de sua ancestralidade: mas não é para tanto. é de se notar que a despeito do predominante versilibrismo estes poemas prudencianos mantêm — visualmente — o alongamento do segundo verso sugerindo-nos ao menos e sempre visualmente um não tão demarcado afastamento em relação aos haicaístas nipônicos dos séculos xvii-xviii: bashô-sora-buson-issa, por exemplo. quanto à urbanidade do aquarelas vale lembrar que os poemas acima citados constituem exceções neste volume sem dúvidas muito mais próximo de um panorama interiorano e sertanejo (conforme a pequena nota explicativa) que da cidade grande (cada vez menor porque maior). o próprio distanciamento do cenário oriental mais conclama que repele o espírito original do haicai: como fazer soarem sinceros versos brasileiros-nordestais que tratassem de “cerejeiras” “neves” “rouxinóis” “montes fujis”? somente a geografia cearense — sertão serra e litoral — pode tornar-se verdadeira imagem: “pés de manga” “brasas de fogueiras” “rolinhas” e “meruocas”: como bem diz o poema 26, “não é o monte everest/ é um pé de seriguela/ com formigas nele”. pois é o conhesentimento direto da paisagem sertaneja que permite a léo prudêncio alcançar em tantos de seus haicais o lirismo subitâneo-surprêsico do haicai oriental 5. o lirismo oriental como expressão da ligação do poeta com a natureza ao redor: faz-se profundamente presente no aquarelas o saber-se natureza e seguramente a maior parte dos poemas tem como tema a contemplação desta: “lagarta devoradora” (6) “passarinho admirador” (25) “mar invasor” (29) “galos cantadores” (41) “borboleta meditadora” (55) “sol renascedor” (68) “vento tropeçador” (79) “botão de flor desabrochador” (99) — tudo é admiração de um fora só perceptível porque ecoante e ecoante porque condizente com o dentro do bardo. por estar aberto pronto receptivo para o fora o fora se adentra e o que era fora e adentro torna-se um no poeta torna-o um com o derredor devolve-o ao entorno natural naturaliza-o ao passo que humaniza — poetiza — a natureza já poética. correndo o risco de um esquematismo por demais simplista (como soem ser os esquematismos) direi que boa parte de aquarelas (quase metade) compõe-se desse olhar contemplativo para o fora: “choveu e o pequeno/ pardal se refugiou, solitário,/ no galho de árvore” (13) ou “envergonhada com/ a multidão de estrelas/ a lua ficou vermelha” (65); uma quantia diz respeito à contemplação do si: o de abertura (1) supramencionado e “o meu silêncio é/ fuga e encontro de mim mesmo/ paz revoada em mim” (42) ou “noite adentro eu/ passo navegando o mar/ imenso que há em mim” (81). [nota de contexto: é certo que “revoada” e “mar” comportam elementos da natureza exterior mas o acento recai na observação de si na intro mais que na extro pecção] o encontro explícito do “in-” e do “ex-” dá-se em poemas como “a lua brilhando/ acima de mim me deixa/ mais perto de Deus” (19) ou no belíssimo blaisepascaliano “ao longe, acima/ de mim, a solidão das estrelas/ me toca” (88) 6. são a meu ler as abordagens predominantes embora ocorra intercalada e espaçadamente a presença da percepção a partir do fora do si-outro como aqui amorosamente “e ela é tão linda/ que a lua toda se alumia/ quando a vê passar” (12) ou aqui perplexa e de novo pascalmünchianamente “diante do universo/ o homem é apenas mero/ grito silencioso” (23). por fim a ligação entre o si e o outro em raros poemas a partir da identidade bem delineada pela transição à primeira pessoa do plural “para além do céu/ o olhar interrogativo:/ estaremos sós?” (74) ou “a vida passa por nós/ e é passageira em nós/ diluída no nada” (80) 7. mas talvez esteja na procura da vinculação à poesia mesma a realização máxima do aquarelas. o haicai fugidio em sua brevidade e permanente em sua reverberação cristalizado assim

a palavra escrita

na folha em branco leva

um pouco de mim (46)

3.

1. perdão léo os haicais tigelíricos a seguir ainda são de estro guilhermino

2.

vejo da marquise

a lua mostrar-se nua

cheia: estripetise

3.

velho o samurai

depõe armas e se põe

a empunhar haicais

4.

vem bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

5.

versos e silêncio:

singelas-te. o aquarelas

lês, de léo prudêncio