de barro e pedra, comentário sobre o livro de nydia bonetti

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A poesia de Nydia é como um muro de barro atingindo constantemente pelas chuvas matinais. Dos seus versos brotam flores, pedras, rios e outros seres do abismo. Sua poética nos ensina a caber nos galhos de árvores, em asas de pássaros e no silêncio de peixes e de cavalos a galopar no silêncio turvo das noites. Nydia é uma das melhores poetas brasileiras em atividade, ave passarinho por estar em contato com seus livros.

 

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A literatura de Bruno Paulino

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É bastante recorrente na Literatura Cearense os autores utilizarem o conto para construir seus artificies textuais. Me arrisco a dizer que em nossa literatura, made in Ceará, há mais contistas que poetas. E sobretudo excelentes contistas. Veja lista de alguns mestres do conto cearense: Moreira Campos, José Alcides Pinto, Dimas Carvalho, Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Natércia Campos… alguns desses autores citados até já se aventuraram em outras searas literárias, mas o conto chega a ser uma forma de se chegar a compreender a safra-verbal de muitos desses autores.

Tenho acompanhada a literatura de Bruno desde A menina da chuva que, por sinal, me parece ser uma ótima porta de entrada para a sua literatura cada vez mais extensa. Mas nem por isso o leitor deverá deixar de ler e reler estes Pequenos assombros. O que fica ao término desse livro é um gostinho de quero ler mais e para isso existem os livros anteriores a esses contos de visagem que podem ser lidos e apreciados por todas as idades. Essa abertura que a obra de Bruno faz, lhe permite atingir um vasto público não o restringindo a leitores acadêmicos ou os que não tem tanta informação teórica sobre a arte literária.

Percebo em seus escritos não apenas uma manifestação literária, mas de uma afirmação existencial do autor para a sua condição de cidadão quixeramobiense e claro cearense. Essas confirmações se fazem pelo uso recorrente do léxico nordestino-cearense. Bruno leva a fala local aos seus escritos. Essa transposição ao papel me lembra o trabalho de um pintor preocupado em retratar a sua gente, claro que Bruno é um pintor verbal e seus escritos confirmam a importância que o autor tem e dá à sua região, o Sertão-central cearense.

O autor apresenta caracteres de um contador de causos à moda antiga, como bem afirmam os contos O exterminador de lagartixas e Visagem. O uso recorrente do narrador em primeira-pessoa também é de uso dos cantadores, dos repentistas e dos trovadores, preciso dizer que Bruno bebe dessa safra nordestina de cordelistas encantadores do sertão?

Em um desses causos, apresentados nessas visagens contísticas, Bruno foge do óbvio do conto, que é narrar as estórias sem fazer uso de outros gêneros, e recorre ao diário para transcorrer a sua narrativa. Em outro recorre a memória para falar de seu animal de estimação. E mais outra vez, utiliza-se de recursos fantásticos para criar estórias sobre o Vilarejo de Boa Fé. Enlaça todos os contos no último deixando no ar a possibilidade de que tudo que lemos pode não ter passado de devaneios noturnos do autor após ler Stephen King antes de adormecer. Tudo é possibilidade de aproximação do irreal pelos contadores de causos do sertão.

Comprimir o texto sem esvaziar a sua qualidade e sem comprometer os aspectos verbais é notório em alguns autores, e que Bruno já vem demonstrando desde sua primeira intervenção literária na crônica e que aqui se reafirmam nestes contos. Isso não quer dizer que o conto deva ser um texto escrito exclusivamente de poucas páginas, note bem: é que a modernidade tem exigido isso dos artistas.

Além das atividades literárias, o autor de Quixeramobim é pesquisador da história social, política e artística de sua região. Essa pesquisa resultou no belo Sertão: poetas e prosadores. Arrisco-me a dizer que a tessitura verbal da literatura produzida por Bruno possui como fio condutor a memória que o autor carrega em si sobre a região em que se situa e sobre os livros que o contista admira.

A boa prosa contida nestes Pequenos assombros cativa pela rigidez e boa coordenação de enredo nas estórias aqui contidas. Bruno já está deixando de ser uma promessa para ser uma realidade nas letras do Ceará. Com quatro livros publicados, o autor vem colecionando elogios por parte de autores já consagrados em nosso meio literário. Fisgo um comentário oportuno de Nilto Maciel: “Não sei se são feitas de memórias as páginas de Bruno Paulino. Se não são, serão de observações. (…) Pois Bruno sai em passeio pelo passado, por gentes e bichos, terras e águas…” esse comentário foi sobre a sua obra de estreia, Lá nas Marinheiras e outras crônicas, mas aproveito o ensejo e reafirmo esse lado observador que o autor desses Pequenos assombros tem. Eis um observador atento a tudo o que lhe cerca e isso o faz contador de assombros, estórias, crônicas, contos e visagens.

[Posfácio para o livro Pequenos assombros, editado em 2018 pela Expressão Gráfica e Editora]

É primavera, crônica de José Luís Lira

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Conforme o calendário, às 17h02min de 22/09, teve início a Primavera 2017 que terminará em 21/12/17, às vésperas do Natal do Senhor. A primavera, conforme o informativo, é a estação que antecede o verão e sucede o inverno. No Hemisfério Sul, onde está localizado o Brasil, esta estação é caracterizada pelo desabrochar das flores e pela elevação da temperatura. Aqui no Ceará somos acostumados ao período chuvoso e ao período seco. Mas, a primavera enche os olhos. Até já fiz poemas sobre a perfeição, beleza e efemeridade da flor, da rosa.

Então, é primavera! Aqui no Ceará sempre achei que a primavera fosse em maio, mês das mães, das noivas, sempre tão florido por conta das chuvas que terminavam em abril. De certo modo tinham o mesmo sentido. Hoje vejo a primavera em seu mês real, setembro, e um pouco antes que ela chegasse participei de uma palestra interessante intitulada a “Linguagem eterna e apaixonante do livro”, ministrada pelos confrades Lêda Maria Souto e Jeff Peixoto, durante evento da Academia Fortalezense de Letras (da qual fui fundador junto com Matusahila Santiago). As rosas, as flores, sabemos nós, duram pouco, mas, encantam a vida. Ao contrário, o livro permanece por gerações e gerações. Com muita habilidade, os escritores falaram de um amigo comum a palestrantes e ao público presente, o livro impresso.

Há alguns dias em minhas mãos e merecendo comentários, envolvendo a temática, li, com alegria, o livro “Girassóis maduros”, de Léo Prudêncio. Envolvendo o outono e a primavera, o poeta inicia dizendo que seu verso “parte do silêncio e do voo”. “Observando o silêncio das árvores”, lembra o “velho ipê”, “abrigo de pássaros”, verdadeiro “asilo a céu aberto”. Diz ele, “Expirou o prazo/ da primavera, mas ainda/ há flores em meu jardim”.

Com sensibilidade poética o autor enuncia: “Aqui jaz o silêncio/ a última flor desabrochou/ repara na roseira/ Sinto cheiro de sol/ mas só os girassóis do meu/ quintal se enchem de luz”. Ainda assim, “estrelas/ pousam nos galhos do velho/ carvalho”, em segredo, quem sabe aguardando “o recital que a chuva nos oferta”, pois, ao amanhecer, “a flor orvalheceu”.

Percorrendo os locais da infância, lembro-me dos campos floridos com seus arbustos e flores selvagens que ninguém cultivava, mas, que possuem beleza infinda, lembrando o evangelista Mateus, “Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam”. É obra de Deus. E eu, menino, ficava muito feliz porque, na minha cabeça, a natureza se enfeitava para receber o Rei dos Reis, Jesus, fonte de toda a beleza e amor tão necessários dia-a-dia!

É primavera. Começamos os meses terminados com “bro” que irão até dezembro. Dizemos, aqui no Ceará, os meses mais quentes; mas, também os dois meses que preparam a festa do Natal do Senhor, o nascimento de Jesus. E por falar em Menino Jesus, lembrei-me, de logo da Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, cuja festa se celebra em 1º/10. Ela prometeu-nos uma chuva de rosas e se constitui a flor mais linda e bela da Ordem do Carmelo. A primavera não é apenas uma estação temporal, mas, também, de nossa própria vida. Então, incorporemos a beleza desse momento e busquemos a felicidade, pois, como dizia Drummond, “felicidade é um estado de espírito transitório por natureza”.

Sobre a palavra “sertão”

J. Borges

“A palavra ‘certão’ (com c), pode ser encontrada, segundo ainda Barroso (1947), já no Século XVI, designando as regiões do interior do próprio Portugal. Mas, no mesmo trabalho, Barroso (op.cit.) levanta a tese de que “sertão” pode ter se derivado do vocábulo ‘muceltão’, abreviado para ‘certão’, cujo significado latino – locus mediterraneus – é perfeito. Afirma ainda, aquele autor, que a palavra ‘celtão’ ou ‘certão’ possa ser também corruptela de puro angolano, da língua bunda – michitu, muchitu e por fim muchitun, segundo ele, por nasalação dialetal. Esse termo era empregado com o significado de ‘mato’ pelo nativo do interior. Tal palavra tornou-se designativo de ‘mato longe da costa’. Depois, por influência lusa, ‘muceltão’ e sua forma abreviada – ‘celtão’ ou ‘certão’, com o significado de selva, interior das terras africanas coberto de mataria (e não somente ‘deserto grande’ ou ‘desertão’). A propósito da mesma palavra, o estudioso Moacir M. F. Silva (1950) apresenta algumas hipóteses interessantes. Afirma que a palavra “sertão” não é brasileirismo, como muita gente supunha, pois já era usada antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses, para designar as terras interiores sem comunicação. Esse mesmo autor explica que a palavra pode ser encontrada duas vezes na Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, na carta de Caminha, ao relatar sobre as terras descobertas ao rei de Portugal, nos dois trechos em que a palavra “sertão” aparece, (cuja grafia é “sertaão” naquele documento), traz o significado de “lugar oculto, ou sem arvoredo, situado longe da costa”, conforme explica Cunha (1964, p. 102)”.

[SOBRE A PALAVRA “SERTÃO”: ORIGENS, SIGNIFICADOS E USOS NO BRASIL (DO PONTO DE VISTA DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA), Fadel David Antonio Filho, revista Ciência Geográfica, 2011]

Mini-resenha sobre “O lado imóvel do tempo” de Matheus Arcaro

O preceito da imortalidade é ponto de partida para O lado imóvel do tempo. O autor utiliza esta busca do personagem, pelo seu ideal de existência, como mote linguístico-ideológico para elencar parâmetros filosóficos sobre o porquê de estar aqui, e vai um pouco além de questões ontológicas, o autor Matheus Arcaro, filósofo travestido de romancista, faz o leitor refletir sobre a sua própria existência. Aliás: leitor e Salvador (protagonista do romance) se encontram nessa narrativa que possui muitos indícios modernos, como o uso da oralidade na narrativa (tanto festejado pelos romances de José Saramago), desordem cronológica e musicalidade (Qualidades que Julio Cortázar se apoiou em muitas de suas narrativas) e linguagem polida que tende a profundidade dos rios (Autores como Rachel de Queiroz usavam também este recurso narrativo). Matheus Arcaro demonstra que apreendeu com os mestres da ficção, como também, demonstra que possui personalidade própria ao construir a biografia, fictícia?, de um poeta desiludido com a sua não existência nos meios literários.

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a arte da brevidade ou tratado despoético sobre o haicai

vem bashô na trilha

estreita: olha acima e “eita”

um haicai lhe brilha

– o poeta de meia-tigela

tratado escrito de maneira descompromissada para abordar sem muita falácia a respeito do haicai e suas ramificações abrasileiradas. espero por meio dessa desescrita clarear nem que seja um pouco os anseios de quem planeja se arriscar a compor haicais. ou mesmo atrapalhar os estudos sobre o haicai. tratado sem fins lucrativos. isso é uma antipoética à la aristóteles & cia.

inicialmente: o haicai é uma poética oriental e bastante popular no japão. os versos de matsuó bashô, e sua vida como andarilho, popularizou esta escrita e pensamento filosófico, pois o haicai também envolve filosofia, ele não é um mero verso descritivo.

marcelo tápia comenta:

o haikai origina-se do tanka ou waka, forma de poema breve com 31 sílabas, que, em sua divisão clássica, é constituído de um terceto (com versos de 5,7 e 5 sílabas) e um dístico (tendo, ambos os versos, 7 sílabas). a maneira preferida de criação do tanka era fazer-se no dístico um comentário sobre o terceto que o antecedia. esse procedimento favoreceu que o poema passasse a ser composto em forma dialogada, ou seja, por duas pessoas, uma incumbindo-se da primeira estrofe, denominada hokku, e outra da segunda, chamada wakiku. acentuou-se, assim, a independência das partes da composição…”

hai: gracejo, brincadeira; kai: harmonia, realização.

pode-se grafar em português do brasil: haiku, haikai, haicai ou hai-kai.

citação de antonio carlos secchin:

afrânio peixoto, em 1919, teria sido o primeiro escritor do país a referir-se ao haicai, no prólogo a Trovas populares brasileiras, chegando ao exagero de afirmar que, no japão, o haicai “é uma sensação lírica que todos sentem e podem exprimir”. no brasil, o tanca, por sua vez acendeu a título de livro em 1961, com Tankas e haikais, de lyad de almeida (a rigor, nem uma coisa, nem outra.)

no tocante a teoria elaborada por guilherme de almeida para o haicai: particularmente não a uso e a considero desnecessária. pois o haicai é uma arte zen e descomplicada de teorias métricas e rimáticas. quem conhece o mínimo sobre literatura japonesa, principalmente a poesia, sabe que a rima é praticamente desusada na arte poética oriental. mas cada poeta é uma mente, mas, a meu ver, enquanto pesquisador do haicai, o método guilhermino não me é uma regra rígida e nem tampouco interessante chegando ao ponto de ser seguida. pois o rigor elaborado pelo poeta citado retira a simplicidade do haicai, esta sim, característica fundamental para a sua elaboração.

o haicai tradicional, do séc. xvi, não possuía título e nem usava letras maiúsculas.

a forma do haicai, para guilherme de almeida, além de conter título e letras maiúsculas, contem dezessete sílabas, divididas em três estrofes. a primeira e a terceira com cinco e a segunda com sete. sendo que a última sílaba da primeira estrofe deve rimar com a terceira e na segunda estrofe há uma rima “interna”. formando o seguinte esquema poético:

[Título]

– – – – a

– – b – – – b

– – – – a

exemplifico melhor fazendo uso de um dos seus haicais:

O pensamento

O ar. A bolha. A fuga.

No lago, um círculo vago.

No rosto, uma ruga.

parece que guilherme de almeida quis fazer do haicai um filho adotivo do soneto ao empregar-lhe o jogo de rimas com o título. guilherme é sempre visto como o introdutor desse gênero em nosso país. portanto ele é um pioneiro, mas nem por isso o melhor ou um dos melhores.

trecho colhido de um ensaio-apresentação-de-livro escrito por alice ruiz:

no ocidente, buscamos a novidade, a originalidade ao fazer poemas. mas esse conceito muda na poesia nipônica, até por se inspirar apenas na natureza que sempre se repete, ainda que de formas distintas. o poema japonês nunca fala sobre os pensamentos ou sentimentos do poeta. embora eles possam aparecer na escolha das imagens

ainda sobre ensaio de alice ruiz: não importa se as palavras e imagens se repitam em vários poemas, o que importa é que tais produções possuam sabor de haicai, pois de nada vale ter teoria se o poeta não estiver em contato, além-físico, com a natureza e suas representações.

o que sabemos hoje sobre os haicais de bashô, segundo paulo leminski, é graças aos seus diários. enquanto andarilho, e porquê não dizer: pregador das boas novas haicarianas, o poema anotava as suas impressões de viagem. anexava ou anotava junto em suas descrições os haicais que lhe ocorriam.

bashô não inventou o haicai, ele apenas o popularizou mais ainda e o descomplicou de regras rígidas.

o haicai está para a cultura oriental assim como o cordel está para a cultura nordestina brasileira.

o haicai é uma arte solitária, individual. também: breve e simplista.

sobre o conteúdo de cada verso contido no haicai paulo leminski em um ensaio biográfico sobre matsuó bashô, comenta:

o primeiro verso expressa, em geral, uma circunstância eterna, absoluta, cósmica, não humana, normalmente uma alusão à estação do ano, presente em todo haicai.

o segundo exprime a ocorrência do evento, o acaso da acontecência, a mudança, a variante, o acidente casual.

a terceira linha do haikai representa o resultado da interação entre a ordem imutável do cosmos e o evento.

logo, o começo do poema faz referência a um local ou a uma estação do ano. Sobre os locais é recorrente o uso de lagoas, casas, jardins, mares, árvore. Sobre a estação do ano, nem sempre é explicita, às vezes ela é supracitada com suas características, como por exemplo se fala sobre flores é claro que me refiro a primavera, se falo sobre um dia ensolarado me refiro ao verão, e por aí vai.

sol imenso lá fora

é dia – hoje não faço poesia

vivo o dia de sol

nydia bonetti

a temática desses poemas não se restringem apenas a desenhar verbalmente uma paisagem. o haicai pode abordar outras temáticas, até mesmo bashô fez isso, há poemas que falam de forma humorística, há os que abordam temáticas filosóficas, os haicais lírico-amorosas, os descritivos, os religiosos autobiográficos e por aí vai.

isto: solidão

do ser: mi(s)to do não-ser:

isto só lhe dão

– pedro xisto

o poema não deve ser uma vaga descrição verbal, mas sim, um olhar poético sobre determinado ponto. o olhar sem pressa e detalhado, retirando do que se vê: o lírico e o irreal.

alice ruiz comenta:

quando se aprende outra língua, também se aprende outra forma de pensar e até de sentir. quando se aprende outra escrita, se aprende outra forma de estar no mundo. quando se aprende uma forma poética distinta da nossa, se aprende outra forma de ser. e, se isso não vale para todas as formas poéticas, com certeza vale para o haikai.”

o tempo é importante para a linguagem haicairiana. Há sempre citações sobre o tempo: dia, noite, chuva, dia noblado, estação do ano, mês do ano, dia e mês do ano…

aristóteles em sua arte poética cita que o poeta não deve ser apenas mero copiador da vida, isso lembrando o conceito de mimese, o poeta deve apenas contar o que de fato aconteceu, mas sim fazer uso desse acontecimento e o recontar como ele poderia ter acontecido. um bom haicaísta possuí visão aguçada, como o poeta manoel de barros:

uma rã me benzeu

com as mãos

na água

o haicai deve ser igual ao ataque de um samurai: simples, profundo e mortal.

interessante o comentário de roland barthes:

o “referente” do haicai (aquilo que ele descreve) é sempre particular. nenhum haicai trata de uma generalidade, por conseguinte, o gênero haicai é absolutamente puro de todo processo de redução”

outra vez barthes: “o haicai é breve, mas não acabado, fechado.”

o haicai é a arte da espontaneidade. mas mesmo assim não há nada de errado em refazer seus poemas. o haicai aceita a reescrita. bashô dizia a seus discípulos que eles deviam reescrever seus poemas quantas vezes necessário. é a prática que leva ao aperfeiçoamento em qualquer ramo artístico. conforme r. h. blyth:

bashô não era um grande gênio de nascença. durante os primeiros quarenta anos de sua vida, não produziu nenhum poema que pudesse ser chamado de notável, ou mesmo bom. bashô abriu caminho até os mais íntimos domínios da poesia por puro esforço e estudo, estudo aqui não querendo significar o mero aprendizado, mas a concentração do haikai do sentido espiritual da cultura que ele herdara.”

(tradução: paulo leminski)

haicai: impacto visual.

sobre a poesia japonesa atente-se ao comentário de haroldo de campos:

o elenco visual na poesia japonesa é algo que lhe é intrínseco, que participa de sua própria natureza. não se trata, apenas, da metáfora visual, daquilo que ezra pound denominava “fanopeia” (“the throwing of an image on the mind’s retina”), mas de alguma coisa ainda mais essencial, que radica na própria estrutura do kanji, o ideograma chinês que os japoneses importaram para sua escrita na segunda metade do século III de nossa era. o kanji que evoluiu de uma fase pictográfica (desenho do objeto) para uma notação extremamente sintética e estilizada, é, em si mesmo, uma verdadeira metáfora gráfica, tanto mais complexa quanto mais “abstratas” as ideias a veicular, pois com este sistema de escrita se podem, como é óbvio, representar não apenas coisas do mundo real, como também emoções, sentimentos, etc. (daí a pertinência do termo ideograma ou representação gráfica de ideias).

priorizar um maior uso de substantivos que adjetivos. uso menor possível de conjunções.

o haicai segue as regras da arte do chá: harmonia; respeito; pureza e tranquilidade.

a linguagem utilizada nessa poética deve ser simples, a tal ponto que uma criança possa entender a gravidade lírica de um haicai. logo, um vocabulário bastante erudito invalida o poema.

O pássaro pousou no galho

– dançou três vezes –

e sumiu

– jack kerouac

o olhar para fora aguça o olhar para dentro.

mais uma vez barthes: “entre o haicai e a narrativa, uma forma intermediária, possível: a cena, a pequena cena.

brevidade. síntese da paisagem debruçada. retorno a si. inventividade linguística.

mais uma vez pesco trecho de ensaio sobre o haicai que roland barthes fez:

o haicai é desejado, isso significa que desejamos fazer um nós mesmos = prova decisiva (de amor): quando a gente mesmo quer fazer; do prazer do produto, infere-se um desejo de produção.”

o haicai segue contemporâneo devido a sua brevidade textual e intensa elaboração poética. ainda hoje ele é escrito e cultuado em nosso país, embora alguns se dediquem de mais e outros se dediquem de menos a sua elaboração.

Bibliografia

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: LeYa, 2013.

BARTHES, Roland. A preparação do romance – vol. 1. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BONETTI, Nydia. Sumi-ê. São Paulo: Patuá, 2013.

CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do improvável e outros ensaios. São Paulo: Perspectiva, 1969.

KEROUAC, Jack. Livro de haicais. Porto Alegre: L&PM, 2013.

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

MEIA-TIGELA, O Poeta de. Girândola. Fortaleza: Substânsia, 2015.

RUIZ, Alice; JABUR, Camila. Estação dos bichos. São Paulo: Iluminuras, 2011.

RUIZ, Alice. Outro silêncio. São Paulo: Boa companhia, 2015.

SECCHIN, Antonio Carlos. Papéis de poesia: Drummond & mais. Goiânia: Martelo, 2014.

TÁPIA, Marcelo. Súbitos de luz. In: XISTO, Pedro. Lumes: uma antologia de haikais. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008.

XISTO, Pedro. Lumes: uma antologia de haikais. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008.