Moreira Campos por trás dos livros

moreira campos
No dia 06 de janeiro de 1914, na cidade de Senador Pompeu, nascia José Maria Moreira Campos. Filho do casal Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. O futuro contista formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Ceará em 1946. Atuou no magistério, com louvor diga-se, na Universidade Federal do Ceará. O nome desse escritor é fortemente ligado à cultura literária do Ceará. Participou de importantes grupos literários como o grupo Clã, grupo precursor do modernismo literário do Ceará além de ser imortal da Academia Cearense de Letras (ACL). Seus livros são fonte de pesquisas acadêmicas não somente em nosso estado, mas fora dele também. Seus livros já foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, alemão e até mesmo para os idiomas japonês e hebraico.
O autor era apaixonado pela capital cearense. Uma dessas declarações de amor aparece no único livro de poemas do autor, Momentos: “Amo-te, fortaleza / nasci contigo / aprendi-te.” Das 348 crônicas escritas para o jornal O Povo, entre citações fortalezenses, 5 crônicas são dedicadas exclusivamente à capital cearense. A poucos meses de falecer, em crônica publicada em um jornal curitibano, ele confessa: “o chão que me viu crescer, que jamais abandonei e onde um dia fecharei os olhos”. Essa devoção pela cidade que o acolheu a partir dos anos 1930 repercute em toda a sua obra, principalmente através da linguagem.
O total de contos produzidos por Moreira Campos diverge, mas muitos autores comentam que ele escreveu ao todo 137 contos. São de autoria do autor os livros Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987).
Os contos de Campos inicialmente eram longos, com o passar do tempo o escritor foi percebendo a necessidade de se reinventar e de se adequar às proporções pós-modernas e um grande salto para isso seria economizar seu vocabulário verbal. O espaço gráfico foi ficando cada vez mais condensado. Seus últimos livros publicados demonstram essa mudança. Mas desde seu primeiro livro, Vidas Marginais, o autor conquistou o respeito da crítica. Em um de seus prefácios, ele comenta que seus contos são “uma fatia de vida, um impressão, uma mancha”.
Através de seus personagens, o autor caricatura os costumes, a moral e a sociedade, utilizando sempre de uma linguagem carregada de humor e também de ironia. Temas como a morte, o erotismo, a loucura e a maldade humana são recorrentes nos textos do autor cearense. A sua linguagem abre mão do sentimentalismo verbal, o que provoca no leitor uma transparência maior do real. Um elemento curioso de suas narrativas diz respeito aos seus personagens, que sempre se apresentam em ação. Moreira Campos não desperdiça tempo apresentando os personagens de maneira longa. O fator psicológico é fundamental em sua escrita, assim como a repetição de termos e expressões populares.
Moreira Campos nos deixou uma vasta herança cultural e humanística. Eu conversei com a filha do autor, Marisa Alcides Campos. Quando criança, sua irmã Natércia não conseguia pronunciar seu nome; em vez de falar Marisa, a pequena pronunciava Badida. Familiares e amigos adotaram o apelido, e Marisa o adotou para assinar os seus trabalhos como artista plástica. Por e-mail tive a honra de conversar com ela, que assim como seu pai, é de uma extensa gentileza:
Léo P: Estamos curiosos para saber como era Moreira Campos no ambiente familiar.
 
Badida: Doce e espalhando Amor, sempre.
Léo P. Como era a rotina dele?
Badida: Acordava cedo, tomava seu café, acompanhado de minha mãe e de nós, filhos. Acendia o sacratíssimo cigarro e conversava amenidades. Depois ia para a Faculdade de Letras ou Reitoria e voltava à noitinha. Após o jantar, geralmente, nos reuníamos na sala, ou jardim e conversávamos. Antes de dormir ia para o seu gabinete (“Buraco da Jia”) e lia, lia.
Léo P: Ele lia e indicava livros pra você?
Badida: Lia muito e, evidentemente, nos indicava livros preciosos. Lembro que li “Guerra e Paz” com 14 anos de idade (era um dos livros prediletos dele) e que tive de repetir a leitura anos depois, para compreender melhor o Mestre Tolstoi.
Léo P: Já mostrou algum texto (conto/poesia) de sua autoria para que ele comentasse?
Badida: Sim e ele era muito generoso com suas críticas.
Léo P: Era frequente a visita de outros escritores na casa de vocês?
Badida: Muito frequente. Tive o privilégio de, na minha mocidade, conhecer os amigos Aurélio Buarque de Holanda, Rachel de Queiroz, Francisco Carvalho, Braga Montenegro, Eduardo Campos e vários outros. Finais de semana deliciosos no jardim de nossa casa, em conversas memoráveis.
Léo P: Você sabe se existe algum conto dele que foi inspirado em algum episódio pessoal?
Badida: Vários. Contos e poesias.
Léo P: Você já presenciou seu pai no momento da criação literária? Conte-nos.
Badida: Ele se trancava no “Buraco da Jia”, escrevia, escrevia, e depois vinha até nós e lia o que acabava de criar. Aplaudíamos e ele sorria.
Léo P: Tem por costume ler os livros que seu pai publicou? Qual seu preferido?
Badida: Leio sempre e gosto de todos, mas Momentos (seu único livro de poesias) me encanta muitíssimo.
Léo P: Seu pai ficava ansioso para receber os comentários de seus livros?
Badida: Se ficava, não demonstrava muito. Mas sei que restava feliz quando a crítica chegava. Certa vez, estávamos almoçando, quando chegou um telegrama de Graciliano Ramos que dizia: “Moreira, hoje amanheci com saudade de Dona Adalgisa. Abraço grande. Graça”. Dona Adalgisa é uma personagem de um dos contos de meu pai e que, na época, acabava de ser publicado.
Léo P: Existem escritos inéditos dele?
Badida: Penso que não. Possivelmente, se houver minhas sobrinhas (Caterina Campos de Saboya e Carolina Campos) saberão melhor que eu, uma vez que ambas cuidam de todo o seu acervo cultural.
Léo P: Como escritor, Moreira Campos deixou um vasto legado literário, qual o legado que ele lhe deixou como pai?
Badida: Legado precioso: Humanístico, Amoroso e Cultural.
 (Esse texto eu publiquei inicialmente na revista Substânsia Nº3)
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