Inéditos na Revista Propulsão

Revista Propulsão
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Goiânia às cinco da tarde

cidade tua solidão me invade
hoje eu sou todo saudade
daquele verde mar e num
vazio quase intocável o
o mundo fez-se de luz

mas eu também sou
essa cidade em ruínas
eu também sou
essa alegria latina

Cantiga de amigo

Conte-me pequeno ramo de flores
traz notícias de meu amado
a quem há muito espero
            em meus braços?
Sei que as árvores comunicam pelo silêncio
não arredo de minha agonia, não dou passos
para trás.
Diz-me flores da acácia
porquê ouço a voz de meu amado
quando o vento corta por entre teus galhos?
            Mas não o vejo
            não o toco
            não o beijo...
Aquieta-me flores do verde pinho
sempre que volto pra casa a ausência dele
me devora, como uma cigarra devora o silêncio.

 

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Girassóis maduros, por Alessandra Bessa

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A poesia desse livro é como uma chuva que vai escorrendo pelos olhos do leitor e vai brotando orvalhos de múltiplas sensações. De leve toque panteísta, o eu-lírico nos faz sentir que a natureza é um lugar que nos habita, nos reflete e nos transforma: somos a própria natureza. Esse lugar nos faz entender a nós mesmos e os outros. Ele diz:

observando o silêncio

das árvores compreendi melhor

a solitude dos monges

Assim, os belos versos são plantados na terra de Goiânia e nascem no despontar do sol. Observe:

goiânia é uma solidão

marchando a cavalo pela

anhanguera

(…)

daqui da janela

avisto que o sol raiou –

menos eu e o girassol

Com isso nos deparamos com flores diversas de cheiros di(versos), banhados na filosofia do tempo, que reflete sua solidão: a metafísica dos silêncios e das sombras nos momentos vividos pelo poeta. Léo Prudêncio nos faz compreender o mistério que nos liga a substância dos girassóis, pois a própria imagem do girassol é um lugar em nós mesmos – uma criação nossa – uma sutil poesia que desponta em momentos inesperados. Como os girassóis – que seguem o movimento do sol e declinam na noite – o eu-lírico é imerso em sensações contraditórias que ora negam e ora afirmam os sentimentos em seu interior.

O livro é uma árvore cheia de galhos, flores e frutos. Os haicais são os galhos que despontam infinitamente e constroem a árvore/poema (que tem a solidão como adubo para o nascer de suas flores). O poeta diz:

envelhecemos:

eu e o pé de abacate:

sólida solidão:

Tudo, dentro do poeta, é passageiro, como o vento, como as nuvens e como as aves que fogem no caminho do céu. Mas há uma sutil cadência que o faz estar em harmonia com a natureza… onde o passado é uma impressão da memória, onde o passado está sempre se reconstruindo no chão onde pisa o poeta: na dor que o enlaça, na lua passageira, na reflexiva chuva cristalina e no próprio transcorrer da vida. Observemos mais um galho/poema:

a poesia floresce

do chão. habita nas asas

de algum pássaro

(…)

esse voo alento

de folhas e flores são ruínas

da estação passada

Nesse sentido o inesperado, que toma o poeta, é a marcha daquilo que pode se tornar poema. Tudo é poema e gira… gira… sol… girassolidão… que vai maturando suavemente no tempo o entender do (uni)verso.

observo ao longe

uma estrela se despindo

de silêncio

O silêncio é um mágico lugar! Ele grita e diz muito! O silêncio atinge a alma dos seres e está no interior e exterior do poeta e pode virar música e pode virar dor.

Os poemas possuem um eu-lírico exótico e contemplativo que não pode agir de outra maneira a não ser meditando acerca dos mistérios das coisas. Com isso as palavras são um microcosmo, um lugar habitável, uma dimensão livre e cheia de múltiplas estações. Há uma mescla do mundo/sonho com o que está sendo buscado na expressão da escrita:

uma estrela cadente

caiu sobre o papel. ilusão

passageira do poema

Há, portanto, um universo que se condensa com a poesia e traz imagens que penetram nas suas veredas. Percebemos que a natureza está no interior do poeta e o interior do poeta está na natureza. Com isso o lugar metafísico de Girassóis Maduros nos convida a olhar de maneiras diferentes as nuances das coisas.

Essas imagens podem girar e se fragmentar, pois não possuem começo nem fim. É a própria extensão da vida, já não é dado a compreender como foi origem do mundo e para onde vamos… porém nós (gi)ramos e (ge)ramos um lugar a contemplar, um mundo próprio. Dessa maneira o livro nos possibilita brincar de vida e escolher os poemas na ordem que quisermos.

A palavra, tudo que existe dentro das certezas:

a palavra me

continua para quando

eu for. é tudo o que sei

A palavra é o mundo que realmente existe. Somos a própria palavra e cada ser é a sua própria morada da palavra que constroem as cadências de seu mundo… e só é rompido quando este se depara com o amor:

alguém escreveu

no caule do pé de romã:

amar é renascer

(Romã) anagrama de amor. Pé de amor (ao contrário). O amor inverte o mundo que é plantado e é cheio das verdades humanas. O homem é um Girassol – e o amor é o que o gira – e que o faz aos poucos amadurecer diante da imensidão de si mesmo. Compreende a natureza que existe dentro do seu interior e que tudo está em seu interior e deve ser amor. Mas o poeta é sempre um lugar inacabado, como diz Léo, olhando pro tempo:

eu sou uma sucessão

de verões inacabados

oásis de mormaços

Já que a sua poesia é o amor pela vida e o faz navegar nos detalhes dos seres, que verdadeiramente tocam o seu coração. Com isso Léo lança mão de ser homem-humano e volta a essência das coisas:

ainda voltarei a ser chão

para que por sobre mim brotem

árvores flores e rios

Girassóis maduros, por Ayla Andrade

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Ler girassóis é tarefa para poucos. Ler girassóis (e não quaisquer girassóis) mas os maduros requer algumas habilidades. A primeira: ser poeta de natureza, mas da natureza observável das coisas. Segundo, um silêncio próprio, como o caramujo solitário, mochileiro errante ou como na definição do escritor para poeta: arquipélago entre paredes de folhas brancas.

Em versos/haicais Léo Prudêncio nos apresenta a felicidade da descoberta matutina entre sóis, jacarandás, pássaros e depois a solidão descontente e saudosa de quem sabe a dor da palavra. A natureza é irascível como a poesia. Mas Girassóis Maduros deixam sementes, marcam a terra e o passar do sol, e do tempo. É antes de tudo, poesia. Poesia, que como as estrelas, não se intimida pelo latir incessante do cachorro ou pelo sol amputado por nuvens em Goiânia.

Ayla Andrade

Sobre a palavra “sertão”

J. Borges

“A palavra ‘certão’ (com c), pode ser encontrada, segundo ainda Barroso (1947), já no Século XVI, designando as regiões do interior do próprio Portugal. Mas, no mesmo trabalho, Barroso (op.cit.) levanta a tese de que “sertão” pode ter se derivado do vocábulo ‘muceltão’, abreviado para ‘certão’, cujo significado latino – locus mediterraneus – é perfeito. Afirma ainda, aquele autor, que a palavra ‘celtão’ ou ‘certão’ possa ser também corruptela de puro angolano, da língua bunda – michitu, muchitu e por fim muchitun, segundo ele, por nasalação dialetal. Esse termo era empregado com o significado de ‘mato’ pelo nativo do interior. Tal palavra tornou-se designativo de ‘mato longe da costa’. Depois, por influência lusa, ‘muceltão’ e sua forma abreviada – ‘celtão’ ou ‘certão’, com o significado de selva, interior das terras africanas coberto de mataria (e não somente ‘deserto grande’ ou ‘desertão’). A propósito da mesma palavra, o estudioso Moacir M. F. Silva (1950) apresenta algumas hipóteses interessantes. Afirma que a palavra “sertão” não é brasileirismo, como muita gente supunha, pois já era usada antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses, para designar as terras interiores sem comunicação. Esse mesmo autor explica que a palavra pode ser encontrada duas vezes na Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, na carta de Caminha, ao relatar sobre as terras descobertas ao rei de Portugal, nos dois trechos em que a palavra “sertão” aparece, (cuja grafia é “sertaão” naquele documento), traz o significado de “lugar oculto, ou sem arvoredo, situado longe da costa”, conforme explica Cunha (1964, p. 102)”.

[SOBRE A PALAVRA “SERTÃO”: ORIGENS, SIGNIFICADOS E USOS NO BRASIL (DO PONTO DE VISTA DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA), Fadel David Antonio Filho, revista Ciência Geográfica, 2011]