Ecos do pós-moderno na poesia do Poeta de Meia-tigela

Artigo publicado na revista Linguagem em pauta. Para ler online e fazer download gratuito.

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Girassóis maduros, por Ayla Andrade

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Ler girassóis é tarefa para poucos. Ler girassóis (e não quaisquer girassóis) mas os maduros requer algumas habilidades. A primeira: ser poeta de natureza, mas da natureza observável das coisas. Segundo, um silêncio próprio, como o caramujo solitário, mochileiro errante ou como na definição do escritor para poeta: arquipélago entre paredes de folhas brancas.

Em versos/haicais Léo Prudêncio nos apresenta a felicidade da descoberta matutina entre sóis, jacarandás, pássaros e depois a solidão descontente e saudosa de quem sabe a dor da palavra. A natureza é irascível como a poesia. Mas Girassóis Maduros deixam sementes, marcam a terra e o passar do sol, e do tempo. É antes de tudo, poesia. Poesia, que como as estrelas, não se intimida pelo latir incessante do cachorro ou pelo sol amputado por nuvens em Goiânia.

Ayla Andrade

Sobre a palavra “sertão”

J. Borges

“A palavra ‘certão’ (com c), pode ser encontrada, segundo ainda Barroso (1947), já no Século XVI, designando as regiões do interior do próprio Portugal. Mas, no mesmo trabalho, Barroso (op.cit.) levanta a tese de que “sertão” pode ter se derivado do vocábulo ‘muceltão’, abreviado para ‘certão’, cujo significado latino – locus mediterraneus – é perfeito. Afirma ainda, aquele autor, que a palavra ‘celtão’ ou ‘certão’ possa ser também corruptela de puro angolano, da língua bunda – michitu, muchitu e por fim muchitun, segundo ele, por nasalação dialetal. Esse termo era empregado com o significado de ‘mato’ pelo nativo do interior. Tal palavra tornou-se designativo de ‘mato longe da costa’. Depois, por influência lusa, ‘muceltão’ e sua forma abreviada – ‘celtão’ ou ‘certão’, com o significado de selva, interior das terras africanas coberto de mataria (e não somente ‘deserto grande’ ou ‘desertão’). A propósito da mesma palavra, o estudioso Moacir M. F. Silva (1950) apresenta algumas hipóteses interessantes. Afirma que a palavra “sertão” não é brasileirismo, como muita gente supunha, pois já era usada antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses, para designar as terras interiores sem comunicação. Esse mesmo autor explica que a palavra pode ser encontrada duas vezes na Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, na carta de Caminha, ao relatar sobre as terras descobertas ao rei de Portugal, nos dois trechos em que a palavra “sertão” aparece, (cuja grafia é “sertaão” naquele documento), traz o significado de “lugar oculto, ou sem arvoredo, situado longe da costa”, conforme explica Cunha (1964, p. 102)”.

[SOBRE A PALAVRA “SERTÃO”: ORIGENS, SIGNIFICADOS E USOS NO BRASIL (DO PONTO DE VISTA DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA), Fadel David Antonio Filho, revista Ciência Geográfica, 2011]

seleta de girassóis | haicais

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*
o passarinho pousou
no galho florido. pausa
para ouvir sutras

*
folhas secas
sobre o chão vermelho.
outono outra vez —

*
expirou o prazo
da primavera. mas ainda
há flores no jardim

*
esse voo alento
de folhas e flores são ruínas
da estação passada

*
aprender a se des-
-prender de si: como as folhas
secas das árvores

*
alta noite: estrelas
pousam nos galhos do velho
carvalho. segredo

*
uma estrela cadente
caiu sobre o papel. ilusão
passageira do poema

Léo Prudêncio nasceu em São Paulo (SP), mas foi no Ceará, na cidade de Sobral, que começou a se interessar pelas artes literárias. É autor dos livros Baladas para violão de cinco cordas e Aquarelas: haicais, ambos publicados pela Editora Penalux. O autor prepara um volume de haicais inéditos e uma coletânea de poemas publicados esparsamente em revistas e blogs literários.

[Poemas publicados na Revista Gueto em 20/01/2017]

Mini-resenha sobre “O lado imóvel do tempo” de Matheus Arcaro

O preceito da imortalidade é ponto de partida para O lado imóvel do tempo. O autor utiliza esta busca do personagem, pelo seu ideal de existência, como mote linguístico-ideológico para elencar parâmetros filosóficos sobre o porquê de estar aqui, e vai um pouco além de questões ontológicas, o autor Matheus Arcaro, filósofo travestido de romancista, faz o leitor refletir sobre a sua própria existência. Aliás: leitor e Salvador (protagonista do romance) se encontram nessa narrativa que possui muitos indícios modernos, como o uso da oralidade na narrativa (tanto festejado pelos romances de José Saramago), desordem cronológica e musicalidade (Qualidades que Julio Cortázar se apoiou em muitas de suas narrativas) e linguagem polida que tende a profundidade dos rios (Autores como Rachel de Queiroz usavam também este recurso narrativo). Matheus Arcaro demonstra que apreendeu com os mestres da ficção, como também, demonstra que possui personalidade própria ao construir a biografia, fictícia?, de um poeta desiludido com a sua não existência nos meios literários.

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